A experiência pop de Justin Timberlake

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Ter uma visão 20/20 significa, em termos oftalmológicos, que a pessoa tem uma acuidade visual normal, capaz de enxergar 100% o quadro de teste de visão, a tabela de Snellen, colocado a 6 metros (nos Estados Unidos, 20 pés) de distância de onde a pessoa se encontra. No programa americano de rádio americano On Air with Ryan Seacrest, Justin Timberlake justificou o uso do termo 20/20 nos seus discos dizendo que ao mostrar para os seus amigos o material que estava gravando, um deles disse que aquilo era música que se podia ver.

Tal definição reflete perfeitamente bem o imaginário causado pelas peças criadas por Timberlake, onde nos passeios pelas músicas é possível ver o artista de terno e gravata na pista, todo arrumado em preto e branco, enquanto sua companhia usa um vestido e protagoniza toda a lírica narrativa das canções, intercalando momentos de cumplicidades, flertes e decepções, tendo como pano de fundo uma noite em que tudo pode acontecer. Continuar lendo

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O pastiche psicodélico do MGMT

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Quando o MGMT se apresentou no programa Late Night with Jimmy Fallon há dois anos atrás, durante uma semana dedicada ao Pink Floyd, e fez um releitura eficiente de Lucifer Sam, uma das músicas do clássico The Piper at the Gates of Daw, ninguém poderia supor que estaria ali a essência que iria guiar a banda no seu terceiro disco. Pois, é na fase psicodélica do Pink Floyd, com a banda sendo liderada por Syd Barret, que Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser parecem buscar inspiração para comporem o sucessor de Congratulations, assim como o primeiro disco, que também traziam esses elementos, mas não de forma tão explicita como agora, e abre caminho para a dupla ir além ao emular não apenas as obras psicodélicas dos anos sessenta e setenta, como também  as recentes bandas e artistas que atualmente flertam com o rock lisérgico de 30/40 anos atrás.

Com um disco de estreia, o Oracular Spetacular, que fez o nome da banda e a transformou em hype, para o bem ou para o mal, com um punhado de músicas radiofônicas que trafegavam entre a psicodelia dos anos 60 e o synthpop dos anos 80, o MGMT subverteu as expectativas e entregou na segunda obra algo que, longe de apresentar qualquer aceno daquilo que apresentarem antes e o tornaram grandes, soa menor e mais sincero que o anterior por  limar a imponência das canções e buscar soluções que fogem do fácil apelo pop para realizar experimentações sonoras, substituindo o synthpop pelo surf music e o indie rock na junção com a psicodelia, brincando com as referencias, criando algo particular para a banda e como novos ares para explorar. Continuar lendo

O Pantim da Lulina

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A arte de gravar música de forma caseira pode ser praticada por qualquer um que se disponha a levar um pouco além o costume de cantarolar no chuveiro ou nas rodinhas de luau, sempre empolgado pelo primeiro elogio que recebe, mesmo que seja da mãe. E com a possibilidade de usar programas e aplicativos cada vez mais eficientes inclusive no quesito de correção de voz, afinação de instrumentos e remixagem, ficou fácil montar um pequeno estúdio dentro do computador, restando ao pretenso artista pegar um violão ou qualquer outro instrumento, podendo até ser uma caixinha de fósforo, chamar uns amigos para acompanhá-lo, caso não queira uma obra intimista, e gravar aquelas músicas singelas, desajeitadas, compostas para passar o tédio ou usar como uma válvula de escape particular.

Dependendo do resultado das gravações ou não, as músicas podem ganhar ouvidos que não sejam dos familiares e amigos com a ajuda da divulgação via internet, que tempos atrás era realizada via fitas cassetes distribuídas de mão e mão, com a possibilidade de ganhar certo reconhecimento ou ficar mesmo entre as quatro paredes do quatro de onde elas foram produzidas. Continuar lendo

Arctic Monkeys e as tentativas de amadurecimento

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Às vezes, amadurecer também significa a perda da identidade. É onde as atitudes idiossincráticas e certa dose de niilismo dão lugar a sensos de responsabilidades e posturas associáveis diante daquilo que até pouco tempo atrás era visto com asco, fazendo com que tal mudança de pensamentos  e modos possam se configurar como um olhar maduro para velhas abstrações juvenis sobre as questões universais, decorrendo que, dependendo da forma como calhe o amadurecimento, de forma espontânea ou abrupta, ocorre no âmago do indivíduo a perda ou não da identidade que fez o que ele é hoje.

Tal questão é fator crucial no universo musical, no qual o artista ou a banda se vê com sua obra entre o se manter no comodismo de sempre fazer o mesmo que a fez angariar um público fiel ou amadurecer as suas propostas sonoras e conceituais, apreendidas com as experiências ao longo das trajetórias e agregando mais influências para o resultado final do seu trabalho, correndo o risco de entregar algo falho por não apresentar a mesma força criativa das obras anteriores e desagradar parte da parcela do seu público. Ou pode ser um fator positivo se considerar que uma banda pode sempre se superar no seu crescente processo de amadurecimento, produzindo discos não melhores ou piores que os outros, mas uma discografia de grandes feitos com distintas qualidades. Continuar lendo

O Sábado particular de Cícero

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Existem diversas formas de um artista lidar com um grande êxito, seja comercial e/ou crítico. Das mais extremas delas é a implosão da obra, acarretando a entrada no chamado hiato por tempo indeterminado, onde o trato musical deixa de ser universal e mira no próprio umbigo, ou pode levar a uma guinada conceitual da obra e assustar uma grande parcela de admiradores que conquistou com a consagrada obra anterior, se arriscando em um trabalho de negação da sua própria arte, que pode dar lugar para uma consagração ainda maior ou para uma possível queda vertiginosa ao limbo do esquecimento.

Talvez nem fosse esperado, mas Cícero experimentou uma pequena consagração com o seu primeiro disco solo. Digo pequeno em relação ao público que alcançou, particularmente naqueles que sentem uma necessidade em encontrar a cada mistura de guitarras com samba-canção um novo Marcelo Camelo ou um Rodrigo Amarante,  que não formam vozes suficientes para fazer as canções de apartamentos dele  serem ouvidas por todo o país, mas que fez um grande burburinho na cena que habita a música alternativa brasileira – independente do que o termo “alternativa” venha a ser ou a abrigar. Continuar lendo

Cobertura: The XX em Salt Lake City (USA), 16/10

Por: Larissa Mendes

Emitindo os acordes de “Angels” por trás de um pano branco – numa proposta meio Gorillaz antes de terem a identidade revelada – devida e igualmente estampado com a arte visual do “X” da capa do novo álbum Coexist, foi assim que a banda britânica de electro indie pop, trip hop melódico ou como queiram definir – The XX – subiu ao palco do The Complex, em Salt Lake City – USA, na última terça-feira.

Os XX foram precedidos pela banda londrina de rock alternativo com traços psicodélicos, 2:54, que tem duas irmãs irlandesas como formação, e pelo DJ espanhol John Talabot, com definitivas influências do Bloc Party, vozes em tom de atendentes automáticos e gritos de filme de terror inseridas em suas músicas e “melodias que fazem você se sentir de braços levantados de frente pro sol”, como descreveu o jornal britânico The Guardian, em crítica ao seu álbum recém lançado Fin.

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Resenha: “Come Of Age” – The Vaccines (2012)

Há exatamente um ano e meio atrás, o The Vaccines lançava seu tão aguardado álbum de estreia, com o título em formato de uma pergunta “What Did You Expect From The Vaccines?” (O que você espera do The Vaccines?). Por terem sido vazadas antes do lançamento, boa parte das músicas do disco eram conhecidas pelos mais antenados, ainda assim, com o lançamento o grupo conseguiu convencer que é digno de todo burburinho na mídia em volta de seu nome.

No começo, o grupo foi muito comparado a duas grande bandas indies dos anos 2000, o The Strokes e o Arctic Monkeys. Em meio a diversos shows e turnês extensas, o grupo gravou seu novo trabalho, o “Come Of Age” (2012), que sugere um amadurecimento da banda. A produção dessa vez ficou por conta de Ethan Johns (que trabalhou com grupos como Kings of Leon e Laura Marling) e foi o responsável pelo abandono do esquema mais elétrico com reverbs do debut.

Neste segundo disco, o grupo aproveita a falta de expectativa e se torna mais otimista a novas experimentações. O próprio vocalista do Vaccines, Justin Young, assumiu que estava mais corajoso em suas composições. Porém, acho que isso tudo não ajudou ao Vaccines em “Come Of Age”. O disco soa mais despretensioso e repleto de altos e baixos. Se compararmos com o primeiro disco, ele não possui a mesma força de canções como “A Lack Of Understanding”, “Post Break Up Sex” e “If You Wanna”. Mas  a banda ainda consegue manter a jovialidade e as composições mais diretas.

Podemos ainda ver o Vaccines como se estivesse no disco anterior em faixas como “No Hope” e “Teenage Icon”. “All In Vain” é uma das músicas que mais se saíram bem dessa nova experimentação, isso porque encontramos um Young mais ousado e certeiro em sua voz. “Ghost Town” tem uma bateria mais trabalhada com um ótimo riff de guitarra. “Weirdo” e “Bad Mood” com certeza são as faixas que mais se destacam nesse novo trabalho. Em “Weirdo”, o Vaccines passa uma mensagem sensível de forma extremamente bela com sua melodia. Em “Bad Mood”, encontramos um dos melhores riffs de guitarra do ano em uma música rápida e arrebatadora, ótima para apresentações ao vivo em grandes lugares. Logo após estas músicas, o álbum se perde em faixas fracas como na “Change of Heart Pt.2″, que não impressiona ninguém, e a fraquíssima letra de “I Wish I Was a Girl”. 

No final de tudo, o Vaccines consegue lançar um bom segundo disco, mas fica aquela sensação do “mais do mesmo” e que poderia ser um pouco melhor. A pressa de gravar este segundo disco pode ter custado um pouco nesse quesito de qualidade criativa, mas eles ainda conseguiram lançar ótimos hits e não decepcionaram por completo.

Vídeos:

Come Of Age (2012, Columbia)

Para quem curte: Arctic Monkeys, Howler e Miles Kane.

Indicamos: “No Hope”, “Bad Mood” e “Weirdo”.

Nota: 7.0