Arcade Fire, Reflektor e as interrogações

Provocação tem tudo a ver com estímulo. A incitação vem quase sempre acompanhada do movimento, da perturbação. O ato transformador, mesmo que ineficaz, perpassa a dúvida, o questionamento. Em se tratando do universo Arcade Fire, reside na reflexão o ponto de partida para a criação de suas obras, nunca esvaziadas, e atreladas ao impulso da interrogação. Win Butler e Régine Chassagne, mentes à frente do processo criativo e vozes guiadoras de sua big band, transformam em música suas aflições e anseios pessoais/universais. O luto, a morte, a recuperação pós-tragédia construíram Funeral; a filosofia, a amplitude das questões universais, o questionamento sobre fé percorreram o Neon Bible; o olhar sobre o indivíduo, suas origens e o manejamento de seu estilo de vida criaram o The Suburbs. Em Reflektor, a liga parece ser a dúvida, a ilusão que nos ofusca o entendimento sobre as coisas e escolhas.

Nâo é à toa que foram eleitos como símbolos os personagens Orfeu e Eurídice, tanto na capa, quanto no título de duas músicas. A história do amor impossibilitado pelo assassinato de Eurídice por um pretendente se torna mito quando Orfeu, seu eterno apaixonado, tenta fazê-la retornar do mundo dos mortos, ao que falha, pois, sob a condição de guiá-la pelo caminho de volta sem que sobre ela detivesse seu olhar, para ela torna os olhos num último momento, perdendo seu amor para todo o sempre. Ademais, como parte do esquema de divulgação do álbum, o filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, baseado no citado mito, vencedor da Palma de ouro de Cannes e Oscar de melhor filme estrangeiro, recebeu no youtube nova trilha sonora, sendo sincronizado integralmente pelo Reflektor

A tragédia explícita na inescapabilidade do amor impossível é apenas mote para nossas pequenas destruições interiores. A insatisfação constante advinda da indecisão e da insegurança perpassa e dá tom a um álbum denso em significado, porém leve em seu andamento. Influenciados por novos ares conquistados em viagens (clara influência de percussão caribenha, mais precisamente no Haiti, terra natal de familiares de Chassagne), os músicos percorrem pop, rock e dance. Estão lá todos os ingredientes que tornaram a banda mundialmente reconhecida, com o plus de surpreender pelo risco de reinventar suas já admiradas qualidades. Além disso, já nas poucas apresentações ao vivo disponibilizadas, se sente ainda mais a força das novas composições: banda acostumada a apresentações inesquecíveis dada a energia com que se entregam ao palco, os arranjos ganham contornos de celebração extrema, de divertimento, tão comum e corriqueiro nessa banda que suplanta os limites da empolgação.

I thought I found the connector. It’s just a reflektor“, Butler entoa no primeiro e aclamado single, que dá título à obra, ganhou clipe interativo e conta com participação singela porém luxuosa de David Bowie. A frase introduz e de certa forma sintetiza o trabalho, subvertendo o que deles esperávamos, uma banda pós-punk de pegada rock and roll que se aventura mais profundamente na disco music e nos sintetizadores (dedo natural da produção do excepcional James Murphy, ex-LCD Sundsystem). Ademais, simboliza a percepção falha inerentemente humana subjacente ao dualismo expectativa-frustração, tão drasticamente revelado nos tempos atuais, os quais são tão influenciados pela artificialidade do virtual. “If this is heaven, I need something more“, continuam, numa incessante inquietação típica dos indivíduos, o reflexo do reflexo do reflexo de outro reflexo…Essa já épica introdução é o pontapé inicial de um álbum também pensado em sua estrutura: são duas partes, com diferentes aproximações, sendo a primeira mais acelerada e contagiante.

E é exatamente o que se segue a “Reflektor”. “We Exist” dá continuidade ao clima dançante, com uma linha de baixo e bateria que muito lembra “Billie Jean“, ao mesmo tempo em que levanta uma bandeira das minorias. “But tell me why they treat me like this? It’s cause we do it like this“, diz Butler. “Flashbulb Eyes” inicia as invencionices rítmicas, com um gingado puxado pro reggae repleto de eletrônicos e guitarras melodiosas, introduzindo uma aura Talking Heads ao disco,  e à magnifíca “Here comes the night time” (ao meu ver, melhor canção do álbum), tradução carnavalesca com teclado lindamente pegajoso de uma exaltação à própria dose de vida que a música traz ao indivíduo: “It starts in your feet, then it goes to your head. And if you can’t feel it, than the rules are dead“.

Em sequência, “Normal Person“, a canção mais rock do álbum, soa como uma espécie de “Come Together” encontra guitarras de Jack White, ao passo que sublinha criticamente a limitação de rótulos e a rejeição ao que é verticalmente imposto. Em seguida, “You already know“, canção mais The Suburbs do álbum, dá continuidade ao clima rock and roll, esbanjando preocupação com as efemeridades (“How can you move so slow. You missed it, you know“). “Joan of Arc“, por sua vez, encerra a primeira parte do disco, em mais um belo exercício de simbolizar discurso através do personagem: Joana D’Arc, queimada viva, tornou-se mártir de uma guerra por conta da fidelidade a ideais visionários, incitando as hipocrisias a que somos submetidos (“First they love you, then they kill you, then they love you again“), bem como as necessidades de firmarmo-nos leais a nossos entendimentos.

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Adiante, dá-se início à segunda parte do álbum, com “Here comes the Night Time II”, uma versão estilizada e etérea de sua original. Esta parte final, em verdade, apresenta um clima menos direto, mais afeito a riscos, e toma corpo com as belas “Awful Night (Oh Eurydice“) e “It’s never over ( Oh Orpheus)“, que, além de dialogar entre si, reproduzem as imagens do mito escolhido para representar as inquietações humanas (e seus desejos, suas buscas, seus impedimentos, suas sustentações ilógicas do querer). Formam uma dupla por demais sugestiva: a primeira embalada por um refrão tendente a cultivar um coro (mero ensaio-autorreferencial para o que “Wake up” faz com mais brilhantismo), a segunda por pulsar charme em cada cadência. “Porno“, na sequência, tangencia os sintetizadores de “Pass this on“, de The Knife, e brinca com influências oitentistas, criando uma ponte lounge para o que há de melhor neste final de álbum.

Afterlife“, de percussão instigante, eleva clichês  como se novidades fossem: “Can we work it out” e “scream and shout” não são, na verdade, versos inspirados, mas aqui soam perfeitos para o clima despretensioso sugerido.Trazendo a interrogação como ponto-símbolo das histórias sobre as quais discorre todo o Reflektor, “Could you see me?” “Where do we Go ?“, “Can it last another night?“, “Afterlife” implica dúvida, tal qual a insegurança que provocou a tragédia sobre Orfeu. E, assim, “Supersymmetry” vem a ser a conclusão de um trabalho realizado para ser épico, e, fosse representado por uma pontuação, lhe caberiam reticências.

E não haveria final mais conveniente e menos óbvio para uma obra repleta de dúvidas quanto três pequenos pontos. Em resumo, Reflektor provoca o ouvinte, através de estocadas genéricas, sem direcionamento exato, mas com precisão significativa certeira. Não é possível passar incólume por esse álbum, seja para se surpreender com uma banda em seu auge, capaz de trabalhar com sua música de forma reinventada, seja para resistir a ele, conferindo-lhe um olhar crítico de inflexibilidade e inércia. De uma forma ou de outra, é difícil negar sua eficácia, embora possa se questionar sua eficiência (o que, na minha opinião, é exemplar). Por tratar os anseios do homem com reverência, e dispor nossa natureza à mercê da visão nublada que temos do presente, a banda elabora temas ao realizar música: nos é sugerido o deslumbramento, não passamos de seres iludidos, eternamente míopes, reféns da probabilidade, ofuscados pela luz que cega, refletidos pela superfície que nos copia e desfigura. As interrogações residem no centro de nossas questões, e não ao cabo delas. É preciso se render à sua força inevitável, não apenas para evoluir, mas para que continuemos vivos. Vida longa à Arcade Fire.

Nota: 9,0

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