Cobertura: Festival No Ar Coquetel Molotov 2013

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A pluralidade do Festival No Ar Coquetel Molotov mais uma vez não ficou restrita apenas nas apresentações, mas também foi observada nas pessoas que circulam por todos ambientes do Centro de Convenções da UFPE, da feirinha de produtos implantada no anel interno do local aos espaços destinados para interação, como a da “Casa do Cachorro Preto”, passando pelo inferninho da sala Cine PE e pela ótima infraestrutura do Teatro da UFPE, onde revelam que a diversidade presente no festival é consequência mútua tanto das atrações, que misturam estilos distintos, como do público recifense, de conhecida multiculturalidade, que frequentam o Coquetel Molotov.

 Na 10ª edição do festival, os dois dias de apresentações ficaram marcados pela grande presença de adolescentes que vieram prestigiar principalmente Cícero e Rodrigo Amarante, no primeiro dia, e Clarice Falcão, no segundo. Se os momentos de devoção foram admiráveis em vários momentos das apresentações dos citados artistas, com o público fazendo coro em várias músicas, os mesmos impediram um melhor aproveitamento de quem queria ver as outras bandas. Não houve vaias ou protestos, mas era visível o descontentamento de alguns que esperavam pelos shows que vieram assistir, embora algumas bandas conseguiram surpreender parte do público que estava em inércia.

Se nos outros anos o apreço pela misturas de sons funcionou, nesse poderia de ter sido menos acentuado para bom aproveito das apresentações. Talvez a diversidade de estilos não tenha sido a razão pela apatia de parte do público, mas sim a popularidade distinta entre as atrações, causando uma discrepância grande entre eles, onde no segundo dia de festival deu-se a impressão de que as três bandas  que antecederam o show de Clarice Falcão estavam abrindo especificadamente para ela. Mas interesse do público a parte, o que se viu no palco nas duas noites de festival abrilhantaram mais uma edição memorável do festival, onde das 16 atrações o Atividade FM acompanhou 12 delas.

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Na sexta, dia 18 de outubro, a cobertura  começou com a intensa performance de Team Ghost que fechou o dia na sala Cine PE, o qual nesse ano recebeu o nome de Red Bull Music Academy Stage,  depois das apresentações de Maurício Fleury, Claúdio N e Rafael Castro, respectivamente. Com guitarras altas e passeando entre o shoegaze e noise, os franceses não economizaram energia, principalmente o vocal/guitarrista Nicolas Fromageau que percorreu todo o palco interagindo constantemente com os outros integrantes da banda e por vezes com público que, inicialmente acanhado, atendeu ao pedido de Nicolas para se aproximarem deles. Com um setlist calcado no recém lançado Radials, o segundo da banda, o Team Ghost foi  ajudado pela apertada, mas calorosa (literalmente) sala e deixaram uma ótima impressão em todos que pouco ou nada conhecia sobre eles.

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Abrindo o primeiro dia do Teatro, Juvenil Silva trouxe para o palco uma mistura de Rock Rural com Brega que, como o próprio disse quando alguém da platéia gritou “toca Raul”, carrega em cada acorde das suas músicas ecos de Raul Seixas. Inicialmente quieto, o público passou a interagir aos poucos com o artista entrando no clima festivo da apresentação e causando logo o já tradicional embate entre os que queria ficar sentado nas cadeiras e os que queria acompanhar em pé e/ou dançando a empolgação do cantor pernambucano que estava visivelmente entusiasmado por tocar em casa. Tendo as músicas do disco que lançou no início do ano, Desapego, como base do seu repertório, além de dar uma amostra do novo disco que está por vir e tocar uma música do início de carreira, apresentação de Juvenil Silva teve como ponto alto a participação da promissora revelação recifense Aninha Martins que acentuou ainda mais o clima de festa no teatro.

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Após Juvenil Silva, foi a vez do primeiro show mais aguardado do festival, o do carioca Cícero. Cria direta da banda Los Hermanos, algo que foi frisado pelo próprio artista no fim da sua apresentação, foi surpreendente ver a recepção acalorada do público com o Cícero, algo digno da bem conhecida devoção que os recifenses têm com a banda também carioca. Com uma hora para se apresentar, Cícero aproveitou para tocar quase na integra os discos que ele lançou e fez um amálgama entre as guitarras de Canções de Apartamento, seu primeiro disco, e a introspecção de Sábado, o segundo, com o público acompanhando na maior parte tempo. Tendo momentos em que o cantor parecia sentir as suas músicas ao fazer caras e bocas em momentos chaves de algumas músicas, era visível a satisfação dele em ver uma plateia tão grande em devoção com o que ele exibia em palco e rasgou em elogios a cidade e cena musical de Recife, terra do seu avô, e o afeto que os nordestinos possuem, ao contrário do Sudeste onde, segundo ele, as pessoas parecem ter perdido essa demonstração de sentimento.

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Fim da performance de Cícero e aguardando o segundo momento mais esperado da noite, o público foi presenteado com uma impecável apresentação do Hurtmold. Tocando na integra o seu mais recente disco, o Mils Crianças, lançando no final do ano passado, a banda mais do que reproduziu as músicas no palco e criou camadas e texturas distintas para cada uma delas, exibindo uma total desenvoltura em executá-las onde, auxiliados por um som bastante nítido, era possível escutar com detalhes todos os instrumentos. Injustamente mais conhecidos por serem a banda de apoio de Marcelo Camelo, o Hurtmold exibiu uma qualidade impecável de refinamento, algo esperado para aqueles que já conheciam a banda, e uma grata surpresa pra quem os desconheciam e prestou atenção no show.

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Entrando sozinho no palco, empunhando um violão e sob as luzes dos holofotes, Rodrigo Amarante fechou a primeira noite do festival exibindo a mesmo áurea de exilado de que retorna a sua pátria que permeia todas as canções do seu primeiro álbum solo, Cavalo. Tal acentuação já é exibido na primeira música, Irene, que possui traços óbvios da canção de mesmo nome que Caetano Veloso compôs na cela de uma cadeia para a irmã. Amarante trazia um jeito cansado, mas em alguns momentos exibia um caloroso sorriso, e seguiu assim mesmo quando passou a ser acompanhado pela banda de apoio, que trazia seus companheiros de antiga banda, Rodrigo Barba e Gabriel Bubu, além de Gustavo Benjão, da banda Do amor. A melancolia e o clima introspectivo não agradou uma parcela do público e entre os já esperados gritos de “Los Hermanos”, de quem não percebia que o momento ali era outro, e de “Maná”, onde foram atendidos no momento em que o cantor avisou que era hora de dar uma animada e tocou a citada música, além da strokeana Hourglass, para logo depois retomar o clima melancólico. Além das músicas de Cavalo, Amarante apresentou novas músicas e apresentou Um Milhão, o mais próximo que chegou da sua antiga banda.  Após a última música, Tardei, e uma  invasão de palco, o cantor  se despede e para alguns minutos depois retornar, para surpresa de um plateia que ia embora sem pedir bis, e entoar Evaporar da mesma maneira que começou, feliz por ter voltado, mas ainda incerto com o seu retorno.

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No sábado, dia 19 de outubro, a cobertura começou no performance intimista do duo Opala na sala Red Bull Music Academy Stage, após a apresentação do produtor musical pernambucano Grassmass. Climático, Maria Luzia Jobim e Lucas de Paiva tocaram todas as cincos canções do seu único trabalho em estúdio, apresentaram uma música nova e fizeram uma bela versão em inglês e com atmosfera Dream Pop da música Moinho D’Água, em homenagem ao centenário de Vinícios de Morais.  Pequeno público presente no início foi crescendo e se aproximando do duo e no fim, após a despedida delas, pediram bis e prontamente atendidos quando os dois retornaram para executar novamente, por causa do limitado repertório, uma das ótimas faixas do EP, Absence to Excess.

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Na sequência foi a vez de uma das ótimos surpresas do festival, o duo português Memória de Peixe que apresentaram com competência as músicas do seu homônimo EP, com uma mistura que passeia entre o Math Rock e a Psicodelia. De performance vigorosa em meio a riffs, bases pré-programadas  e uma densa e cadenciada bateria atraiu a atenção do público pela desenvoltura hipnotizante comandada apenas por duas pessoas que se mostravam bastante satisfeita com a ótima recepção de um público que praticamente não os conheciam.

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Fechando a segunda noite da Salinha veio o furacão de cabelo rosa chamado Karol Conká, legítima representante de uma mistureba que envolve rap, percussões que remetem a músicas de origens africanas, glamour e muita simpatia. As letras didáticas, mas sinceras, são expostas sempre com sorriso no rosto, e um carisma digno de diva. Do “Gueto ao Luxo” mira na crítica social, e acerta parcialmente. A artista parece estar bem mais à vontade com o descompromisso, como em “Gandaia“. No mais, o discurso é da autoafirmação, do feminismo, do clima autoajuda tão subjacente às letras de rap, com roupagem simples, um DJ a tira-colo e muito apelo pop. Grata surpresa, Conká se faz necessária por ser ótima representante do seu estilo musical, tão dominado e estigmatizado por homens, acostumados inclusive a objetificar o gênero feminino. Descontração em pessoa, Conká presenteou o público, cada vez mais empolgado ao longo da apresentação, com um cover de “Pour it Up“, de Rihanna, ao final da apresentação. Como não está pra brincadeira, é certo que ainda ouviremos muito falar dessa moça em breve futuro. ( Por Higgo Braga)

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Abrindo os trabalhos do Teatro da UFPE neste segundo dia esteve uma banda que poderia muito bem fechar a noite. Grande banda, na verdade, em ambos sentidos, Bixiga 70 trabalhou seu mais novo trabalho, homônimo, que não precisa de uma palavra para exprimir tantos sentimentos. Foi uma grande festa: a profusão de instrumentos (trombone, trompete, sax, guitarra, bateria, percussões) ecoou por todo o espaço, obrigando alguns insolentes pré-adolescentes claricefalquianos a, vejam só, dançar. “Kalimba” fez trenzinhos de gentes animadas pelas cadeiras, “Kriptonita” nos transportou a outras dimensões, “Tangará” catapultou todos os talentos de cada músico presente naquele palco (sobrou até espaço para homenagear Luiz Gonzaga). Apresentação memorável, que desde já prenuncia ansiedade por muitas, muitas outras. (Por Higgo Braga)

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Direto de Seattle, Mike Handreas, e seu Perfume Genius, tratou de baixar todos os ânimos de quem estava ouriçado com o som de Bixiga 70. Melancólico, intimista, contemplativo, o cantor, contou com dois teclados e uma bateria subutilizada para discorrer seu lirismo-pílula, por meio de músicas, que quando talvez começavam a tocar nalgum canto da gente, repentinamente tiravam a mão, e acabavam sem maiores avisos. A emoção, quando bem empregada, transforma qualquer tédio em atenção, o que não foi o caso. Foi difícil conter os bocejos, e a impaciência, até. Mas não apenas isso: é uma pena presenciar um artista com um potencial visível, intenções aparentemente sinceras, mas que peca por executar suas emoções com uma insensibilidade incoerente. “Hood” foi o melhor momento do show, um respingo de emocionante delicadeza, nada suficiente. (por Higgo Braga)

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Na música brasileira, existe um monstro muito bem acordado chamado Juçara Marçal. E ela dá voz à “Metá Metá“, que desfilou seu mais recente trabalho, Metal Metal e realizou a melhor apresentação da noite, em minha opinião (acho que não há polêmica sobre isso). O segundo disco do trio Marçal-Dinucci-França se agigantou no Teatro da UFPE, transformando-o num grande terreiro estilizado. Os três artistas, cada um na sua expressão de arte, compõem vértices irretocáveis de um triângulo sólido composto por talento. O público presente naquela noite, embora grande parte possa não ter se dado conta, presenciou um espetáculo em sua mais genuína acepção, muito por conta da magistral performance de cada um dos integrantes na execução de canções poderosas. Durante quase uma hora, o clima se elevou, as energias se propagavam por sons impressionantes, e músicas como “Cobra Rasteira“, “Oya” e “Man Feriman” fizeram história. Não há dúvidas de que Metá Metá é o que há de melhor na atual música brasileira, e a excelência de sua apresentação é prova inconteste dessa observação. ( por Higgo Braga)

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Acompanhada de um guarda-chuva preto e uma capa de mesma cor, certamente fazendo um cosplay da esposa de Ted Mosby, Clarice Falcão subiu ao palco do Teatro da UFPE para encerrar um festival que em anos anteriores teve como último show Dinosaur Jr, Racionais MCs, Peter Bjorn and John e Moraes Moreira. Os gritos dos adolescentes (que próxima semana realizarão a prova do ENEM), antes fazendo coro de algumas letras da cantora, agora se tornam desordenados, cada um tentando se mostrar mais emotivo por ver seu ídolo de perto. Talvez por isso, pela primeira vez nesses 10 anos, o Coquetel Molotov tenha disposto grades (!!!) na frente do palco do Teatro. O setlist foi composto basicamente de seu primeiro álbum, Monomania, lançado em abril deste ano, ainda possuindo em seu meio um cover de uma música de seu pai e uma música nova, “Se Esse Bar”. Com uma equalização que deixava em destaque sua (fraca) voz, era possível ouvir todas as músicas, mesmo com toda a histeria dos fãs. Como consequência, se perdiam as notas que ecoavam do violoncelo, ukulele e violino. O que era uma pena, pois percebia-se que, mesmo com uns arranjos às vezes fracos ao vivo, a banda de apoio realiza bem seu papel. Entre uma música e outra, Clarice tentava uma aproximação com a platéia, ora com discursos bobos, ora politizados sobre o quase processo de Marcos Feliciano ao Porta dos Fundos. Se não o ponto alto do show, mas o ponto mais engraçado, aconteceu com uma fã dando um ‘fuck the police’ nas grades colocadas para separar o público do palco e invadindo o palco para abraçar a cantora, que prontamente inclinou o microfone para a moça cantar. Atitude que foi seguida por um “essa música eu não conheço”. Depois disso, eu notei que ainda havia r$4 em fichas no meu bolso e vi que era melhor sair do teatro e ir comprar uma Budweiser pra não ficar no prejuízo. E grata foi minha surpresa ao ver que estava tocando Smiths do lado de fora. Ganhei em dobro. Ou Triplo. ( Por Diogo Nunes)

Textos: Rodrigo Laurentino e Higgo Braga

Fotos: Thercles Silva e Vanessa Mota para o Flickr do Festival

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