A divertida autenticidade de Haim em “Days Are Gone”

Apreciadores de música costumam ter em comum o gosto pela novidade. A internet, sem dúvida, é a maior aliada na difusão dos novos sons e seria chover no molhado discorrer sobre sua importância como redefinidora das relações de consumo com a música. A facilidade de acesso ao trabalho de um artista, por sua vez, disseminou o hábito da procura pelo link. Há pela web comunidades infindas compartilhadoras de novidades, repletas de pessoas dinâmicas e inquietas, ávidas pelo lançamento, viciadas no novo. Haim é um exemplo clássico de banda que circulava há tempos por esses grupos. Não houve curioso frequentador de fóruns de música nos últimos tempos, que não tenha ouvido falar dessas moças, antes mesmo que elas concretizassem o lançamento de seu primeiro disco, o festejado Days are gone.

Pois então, eis Este, Danielle e Alana Haim: irmãs, instrumentistas, vocalistas e compositoras. Esse negócio de família proporcionou grandes doses de expectativa, a julgar o quão fortes são os singles que circulam há um bom tempo, bem como as suas aparições sempre pertinentes em festivais e programas de rádio e TV (sem esquecer covers curiosos de “Strong Enough” de Sheryl Crow, e “Wrecking Ball“, de Miley Cyrus). Elas não decepcionaram. Pelo contrário, nos apresentaram a um dos trabalhos mais consistentes e relevantes do ano, repleto de influências claras e bem digeridas, que compuseram um corpo praticamente sem imperfeições. Days are gone trata-se de um trabalho primoroso, que pulsa correção, sem pontos baixos, nem objeções.

Os supracitados singles “Falling“, “Forever“, e “The Wire” já prenunciavam os elementos delineadores do carisma desse disco. Influências disco, R&b, melodias com jeitinho country, guitarras ritmadas, linha de baixo intensa, harmonias bem trabalhadas. É como se Pat Benatar fizesse um híbrido com Fiona Apple e Feist. O resultado é esse monstrinho de três cabeças, cabeludo, com experiência na estrada e no show buziness (duas delas integravam a Vivian Girls), e extremamente talentoso. Esse mosaico impressiona por se compor de extrema coesão e cadência. Os singles anteriormente divulgados dão início ao álbum, num sinal digno de autoconfiança na qualidade do que há de vir.

Essa poderosa tríade é acompanhada de músicas tão consistentes, que qualquer  outra canção conseguinte poderia ter ocupado lugar como tal. “If I Could Change Your Mind“, “Honey & I“, “Don’t Save Me” e “Days Are Gone” formam uma sequência arrasa-quarteirões. Bem assessoradas (o álbum conta com James FordArctic Monkeys, Klaxons -, e Ariel RechtshaidVampire Weekend, Usher – na assinatura da produção), impressiona pela qualidade técnica e o exercício extremamente apropriado de como elevar músicas, de como embutir elementos, riffs, ritmos, palavras, corações, onde pessoas menos inspiradas usariam piloto-automático. O grande mérito desse trabalho é percebê-lo como fruto de uma insistente necessidade de agradar. A diversão pulsa faixa a faixa, é pop de gente grande, consistente, maduro, surpreendentemente redondo. É o caso de “My Song 5“, que dá sequência a um disco já ganho, numa música que me parece ser a mais trabalhada para o R&B, algo entre “Cry Me A River“, de Justin Timberlake e qualquer grave charmoso de Fiona Apple. Efeitos e guitarras exemplares criam uma canção deliciosa, imprópria para a imobilidade.

Go Slow” (mais 80’s do que nunca), “Let Me Go” (melodiosa, pulsante) e “Running If You Call My Name” (uma despedida doce e tocante) concluem um disco que impressiona pelo resultado, que reúne equilibradamente divertimento, autenticidade e carisma. Days Are Gone é um trabalho animado e animador, desses de alçar humores, iluminar ambientes. Difícil não se convencer de que essas irmãs já deram passos sólidos rumo à notoriedade, o que prontamente nos coloca em estado de alerta. O ávido acompanhamento dos caçadores de links outrora observado quando as moças ainda eram promessas agora se direcionará para caminhos determinados. Days Are Gone cumpriu o objetivo de superar expectativas; vejamos se os dias que hão de vir confirmarão novas superações. Até lá, temos uma excelente trilha para aproveitar a espera.

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