A experiência pop de Justin Timberlake

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Ter uma visão 20/20 significa, em termos oftalmológicos, que a pessoa tem uma acuidade visual normal, capaz de enxergar 100% o quadro de teste de visão, a tabela de Snellen, colocado a 6 metros (nos Estados Unidos, 20 pés) de distância de onde a pessoa se encontra. No programa americano de rádio americano On Air with Ryan Seacrest, Justin Timberlake justificou o uso do termo 20/20 nos seus discos dizendo que ao mostrar para os seus amigos o material que estava gravando, um deles disse que aquilo era música que se podia ver.

Tal definição reflete perfeitamente bem o imaginário causado pelas peças criadas por Timberlake, onde nos passeios pelas músicas é possível ver o artista de terno e gravata na pista, todo arrumado em preto e branco, enquanto sua companhia usa um vestido e protagoniza toda a lírica narrativa das canções, intercalando momentos de cumplicidades, flertes e decepções, tendo como pano de fundo uma noite em que tudo pode acontecer.

Na trilha, Justin Timberlake se apropria dos ritmos que fizeram as pistas de danças nos anos 70, em especial o R&B e a Disco Music, e os molda para os novos tempos, sem cair no erro de criar pastiches que emulam uma saudade daquilo que não se viveu, impedindo a torpe sensação de que naquela época era melhor, ao contrário do Daft Punk que, em seu mais recente disco, finca os dois pés no passado ao recriar a áurea da Disco Music.

Entretanto, mais do que atualizar um estilo, um comportamento, o artista parece preocupado em experimentar distintas sonoridades e brincar com as convenções do pop, sem fugir da essência do mesmo, mantendo a todo o custo um senso comercial. A Experiência pode ser inicialmente percebida na duração das peças onde, extrapolando os 3 ou 4 minutos que uma música radiofônica fica capsulada, são esticadas não por necessidades, mas por vontade de manipular todas as suas possibilidades rítmicas, indo ao limites ao quebrar a clássica estrutura  estrofe-refrão-estrofe-refrão do pop.

Não devemos encarar tal ousadia com assombro ou como o máximo de inventividade, afinal, nada aqui indica que as ideias surgiram de forma espontânea e trabalhadas de forma febril, e sim de forma milimetricamente calculada, estudadas, como um típico produto a ser entregue para as grandes massas. Assim, o que deve guiar o nosso olhar na experiência de Timberlake é a ideia de que, da forma como foram dissecadas e exploradas ao máximo, as suas peças oferecem mais do que o alívio convidativo e urgente que a música pop necessita ter, já que não devemos exigir muito delas, ao preencher de surpresas e detalhes cada canção presente em ambos os discos e obrigar que o ouvinte faça várias audições para ter uma dimensão maior da obra.

No seu primeiro disco, Justified, em meio as desconfianças que um ídolo teen pode acarretar, Justin Timberlake mostrou que podia ir além do que se espera de um mero funcionário da indústria ao se sobressair dos demais mesmo trabalhando dentro do pop descartável, passeando de forma tímida pelo R&B e apadrinhado por fortes produtores como The Neptunes e Timbeland, que injetaram influências da música negra no trabalho do cantor. Na passo seguinte, em Futuresex/Lovesounds, pendendo para retro-futurismo e tendo Timbaland segurando as rédeas, Timberlake trouxe o sexy de volta para a música, sendo mais sensual do que sexual, e criou uma grife comportamental que passou a ser seguida por artistas que passaram a priorizar mais o ritmo e a estrutura musical do que a intercalação entre a estrofe e o refrão. Agora, com a The Experience 20/20, dá um passo à frente como músico e, trabalhando novamente com Timbaland, cria uma identidade que passeia com total liberdade criativa para moldar a sua música sem se importar com o apelo comercial.

Dividido em duas partes e com mais de 70 minutos cada, sem contar as faixas bônus, The Experience 20/20 corria o sério risco de ser redundante e cansativo, mas as acuidades dadas para cada música as individualizam, se tornam épicas e cada uma apresenta uma distinta particularidade. Tendo Suite & Tie como carta de apresentação dos discos, em meios a inspiração das Big Bands de jazz e com um suingue pronto para embalar o flerte entre o cara de terno e gravata e a moça de vestido, Justin Timberlake esbanja pleno domínio dos estilos que escolheu trabalhar, sempre buscando influência do passado e o moldando para o pop feito nos dias de hoje.

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Com uma voz que a priori não chama a atenção, ainda mais se considerarmos que o R&B é conhecido como o estilo da catarse e que em programa como The Voice o alcance vocal impressiona público e jurado mesmo não possuindo alma na maioria das vezes, Timberlake busca na interpretação das canções o efeito  esperado que a todo o momento tenta nos seduzir. Deste modo, colocando as duas partes da Experiência em perspectiva, encontramos ao longo das obras um crooner galanteador, como em Pusher Love Girl e Strawberry Bubblegum, mergulhado em gemidos, falsetes e suingue; o artista esquizofrênico e sem medo de parecer prolixo, encontrado em Let the Groove Get In e True Blood; o aceno para o Michael Jackson de Off The Wall, presente na citada Suit & Tie e ainda mais acentuado em Take Back the Night, que dialoga diretamente com Don’t Stop ‘til You Get Enough, do criador de Thriller; o homem com o coração em frangalhos, visto principalmente me You Got It On – balada que resvala no Gospel  -, Mirrors – que contém toda a pompa que uma balada radiofônica precisa ter –  e na balada radiohediana  Blue Ocean Floor; e o sujeito versátil, que passeia livremente em diferentes vertentes, seja nos diálogos com o Hip Hop, como em Don’t Hold The Wall e Gimme What I Don’t Want Know (I Want), onde a presença de Timbaland ser faz presente com o uso de beatbox e samples, seja na aproximação com o pop eletrônico, presente em TKO e Murder.

Apontando para várias direções, mas convergindo para o mesmo núcleo de intenções, a Experiência de Justim Timberlake é uma obra que foge dos padrões comerciais ainda que possua amarras fixas as convenções daquilo que vem a ser denominado pop. Com um nítido olhar tanto para o passado como para o presente, Timberlake cria, ao lado de Timbaland, um produto para as massas que vai além do escapismo imediato e que, mesmo conquistando um patamar que já não precisa provar nada pra ninguém, surge incansável na busca de novas explorações sonoras que a música pop ainda tem para oferecer. 

Nota: 9,0

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