Rodrigo Amarante e seu Cavalo silencioso

Rodrigo-Amarante-Cavalo

Rodrigo Amarante. Um nome que, além de não requerer apresentações, não sugere qualquer limitação. Pelo contrário, por ter abraçado a amplitude de símbolos, o músico sempre se fez sugestivo, nunca certeiro. Cúmplice de Marcelo Camelo na profusão de sugestões que permeavam o trabalho da maior banda brasileira da década passada, a Los Hermanos, Amarante sempre foi afeito a discussões subjetivas: nunca se pretendeu explicar. A direção é a confusão, não existe resposta fechada.

Durante o inesperado “hiato por tempo indeterminado” da banda, que ainda perdura, Amarante tomou seu rumo. Pausou a vida na terra natal, arrumou malas em direção a terrenos desconhecidos, e pôs-se a se experimentar. Saiu dos holofotes cômodos do sucesso no Brasil (que incluíam dedicação à Orquestra Imperial do Rio de Janeiro), para o underground norte-americano. Lá, fez parcerias com Devendra Banhart, e fundou nova banda, dessa vez com o também brasileiro, baterista dos Strokes, Fabrizio Moretti, a Little Joy. Ademais, participou de projetos de Marisa Monte e de Tom Zé, apenas para citar alguns exemplos. Embora noutras condições, Amarante, para o qual conforto parece ser desconfortável, à música sempre esteve ligado. Cavalo vem inaugurar o trabalho solo à história do baixista, guitarrista, cantor e compositor. Um debut estranho para um músico tão experiente, que acostumado a estar cercado, vem desacompanhado pela primeira vez.

Ao experimentar a solidão, o artista tratou de olhar para dentro. Cavalo, uma espécie de auto-denominação que o cantor dá ao duplo que enxerga quando observado por si mesmo à distância, é a representação da busca pelo pessoal, numa espécie de identificação com a própria intimidade. Não é desabafo, é abertura. É uma exposição velada, uma nudez com relances. Dentro de si, Amarante vislumbrou o silêncio, sendo o vazio seu maior ruído. Mas seria engano descrever o excesso de ausência como falta de significado. Há traços de lirismo e rompantes de poesia quase o tempo inteiro. “O pedaço de mim que é só teu é intento sem tanto intenção” é dessas frases típicas das composições de Amarante às quais já estamos acostumados há tempos, e, para falar a verdade, dada à forma repleta de lacunas, semelhantes às presentes no 4 do Los Hermanos, não há em Cavalo grandes surpresas.

Estamos diante, sem dúvida, de um disco extremamente coerente, com assinatura emocional a cada momento. Não sugere diversão, passatempo, nem mesmo revisitações viciantes. É um esforço quase monotemático de um artista em constante dilema com suas próprias idas e vindas. Acostumado à frequente mudança dos ambientes físicos, Amarante, em uma carta aberta de agradecimento, desabafa sobre a “mágoa do desvio, da espera da volta”. É tocante perceber os efeitos que essas inconstâncias geram às suas contribuições musicais. “And when you close your eyes, you’re bound to look inside to find the one you’ve always claimed to miss”, canta, em inglês, em Hourglass (há também uma singela música em francês, “Mon Nom”). “…Tardei, que na vinda eu quis pela primeira vez nunca mais partir, esperar você. O meu lugar onde está?”. Amarante deve ter consciência do aspecto retórico de seu questionamento, pois, ciente da inevitabilidade das mudanças, não devemos nos bastar num só lugar.

Tanto, que o cantor abre espaço para dois rompantes de animação no álbum: “Maná”, primeira música que apresentou ao público, um “canto pra cura de amor”, samba com gosto e harmonia tropical, e a já mencionada “Hourglass”, um flerte pop eletrônico que pode ser considerado o mais distante que Amarante tenha ido nos confins de sua sala vazia. No mais, o que sobra é calmaria. “O cometa” e “Cavalo” carregam em lucidez onírica, no jeito ébrio de cantar do Amarante, a primeira embalada por violão, a segunda por piano. “Fall Asleep”, “I’m Ready” e “The Ribbon” são as outras contribuições em língua estrangeira (a segunda tem versos em português), com destaque para essa última, que, por conta do arranjo contido e da interpretação confessional, tangencia mais emoção do que placidez.

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Cavalo, mais do que um reflexo confessional, vem a ser um retrato intimista com um tanto número de dimensões. E, por natureza e consequência, representa o que moveu Amarante nesse período em que se propôs a trabalhar individualmente. Por conta disso, embora soe repetitivo, não apenas temática, mas também sonoramente, não me parece estancar a criatividade do artista. Através de seu humilde abraço às mudanças, não me espanta se ele, ao provar da (in)segurança de atuar sozinho, venha nos cantar sua experiência. Embora Cavalo não configure espécie alguma de auge, nem reinvenção, e provavelmente não vá durar nas listas de reprodução por muito tempo, não me desatiça a curiosidade sobre os próximos questionamentos. “Quem na rua se perde, encontra o que pede, acerta o que mede, aponta até errar, que o erro é onde a sorte está. Não queira ver”. Trate de errar, Amarante. O Cavalo pode ser silencioso, mas jamais silenciado.

Nota: 7,0

 

 
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