O Pantim da Lulina

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A arte de gravar música de forma caseira pode ser praticada por qualquer um que se disponha a levar um pouco além o costume de cantarolar no chuveiro ou nas rodinhas de luau, sempre empolgado pelo primeiro elogio que recebe, mesmo que seja da mãe. E com a possibilidade de usar programas e aplicativos cada vez mais eficientes inclusive no quesito de correção de voz, afinação de instrumentos e remixagem, ficou fácil montar um pequeno estúdio dentro do computador, restando ao pretenso artista pegar um violão ou qualquer outro instrumento, podendo até ser uma caixinha de fósforo, chamar uns amigos para acompanhá-lo, caso não queira uma obra intimista, e gravar aquelas músicas singelas, desajeitadas, compostas para passar o tédio ou usar como uma válvula de escape particular.

Dependendo do resultado das gravações ou não, as músicas podem ganhar ouvidos que não sejam dos familiares e amigos com a ajuda da divulgação via internet, que tempos atrás era realizada via fitas cassetes distribuídas de mão e mão, com a possibilidade de ganhar certo reconhecimento ou ficar mesmo entre as quatro paredes do quatro de onde elas foram produzidas.

Tal forma de fazer música se tornou uma identidade para Lulina, cantora nascida em Olinda, mas foi que para São Paulo de férias e acabou permanecendo na cidade, começou a compor na adolescência, observando de longe o movimento Manguebeat acontecer enquanto lia livros e escutava Nirvana no seu quarto, como ela conta em entrevista para o site BodySpace, em 2009.  Iniciando as gravações caseiras em 2001, ainda em Pernambuco, de forma descompromissada, Lulina passou então a gravar um disco por ano, com um violão, um computador e, às vezes, alguns amigos, onde as músicas, com sua pequenina e frágil voz, versam de forma humorada e irônica sobre o cotidiano, dos relacionamentos e das sensações oriundas delas, fugindo do lugar comum ao utilizar uma lírica que trazem metáforas inusitadas para suas narrações e observações do dia a dia, no qual “miojo”, “sangue de et”  e “bolhas nas pleuras”, entre outras várias referências, constroem um universo particular e irreverente da artista, potencializado por arranjos que priorizaram a delicadeza, por mais lo fi que as músicas sejam.

Depois de uma série de discos gravados em casa, em 2009 foi lançado o primeiro a ser gravado em estúdio, Cristalina, que repaginava uma série de músicas presentes nos 6 primeiros anos de gravações caseiras de Lulina. Apesar de a produção dar um aspecto mais profissional para as músicas, a identidade caseira da cantora permaneceu intacta, com sua voz sendo priorizada em relação aos instrumentos, destacando assim as letras, parte tão importante da sua letra. No ano seguinte, veio o seu segundo disco, Meus Dias 13, agora com letras inéditas e o escritas a partir de uma proposta insólita da cantora: pediu para o seu público enviar uma frase sobre o que elas estariam pensando ou sentido durante os dias 13 de cada mês. Tais coletâneas de frases viraram versos presentes em 13 músicas, demonstraram ainda mais a facilidade de Lulina em compor canções que, se não apresentam uma grande intensidade, possuem um lirismo único no seu modo de fazer música.

Agora, em 2013, Lulina dá um passo a frente no seu extenso catálogo de músicas. O aspecto caseiro ainda permanece envolvendo o disco, mas Pantin surge mais bem amadurecido em relação a obra toda cantora, seja em termos de composição, seja nas melodias mais bem trabalhadas instrumentalmente. Tal reflexo pode ser relacionado com a idade da artista que, hoje com 34 anos, passa a observar o cotidiano, as pessoas e a si própria com um olhar mais experiente de vida, diferente de, usando uma alusão aos títulos dos dois últimos discos caseiros que ela lançou,  quando teve que aceitar os 14 ou quando deu um reset na vida aos 28. O olhar agora é mais reflexivo, abordando variados temas como a mesma ironia e bom humor de outrora, mas com um descontentamento que paira sobre a obra.

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Abrindo com Bombom Recheado, de versos que dizem “me toquei de que eu não era nada/ nem tentei disfarçar com uma piada/ pra chamar a atenção pra me fazer melhor/ percebi que valia tanto quanto pó”, e encerrando o disco com a faixa-título, de versos como “ninguém presta atenção no que eu ‘tô’ dizendo/ só querem uma musiquinha pra rebolar/ ou para chorar”, dão a tônica da amargura presente no álbum, encarando a vida como um fardo em detrimento do encantamento com as mesma nos discos passados. Assim, passando pela obra, encontrarmos outros descontentamentos, como no interesse em fazer uma amizade com a tristeza e o fracasso, em Amizades, música pontuada por uma guitarra ruidosa; na promessa de alguém que fará o seu amor infeliz por acreditar que cedo ou tarde a dor irá acometer o casal, na melancólica Prometeu Sem Cadeado; e na angustia sem aparente causa, em Lua Vazia, faixa que resvala no brega e que dialoga com Os Mutantes. Mesmo em músicas de levada mais animada, como no sambinha de Faxina no Juízo e em Sexo é Maquiagem, que revive a Lulina de letras bem-humoradas, guardam uma necessidade de mudança, como se a autoestima precisasse de um upgrade.

Artista sui generis na música brasileira, Lulina assume uma nova faceta na sua obra, engrandecendo-a e amadurecendo de acordo com a forma  que ele enxerga o mundo, sempre extraído material das experiências vividas,  sem deixar que a atmosfera de obra caseira que tanto a caracteriza se dissipe ou se torne supérflua, permanecendo  como um ponto sempre a se transformar sem perde a identidade. E de suas particularidades como artista, caminhando à margem da cena musical brasileira, Lulina disse em entrevista para o site Scream & Yell, em 2010, que tanta gente que ela admira não fez sucesso, como a banda Velvet Underground e Tom Zé, mas que se fosse como eles, já estaria satisfeita. Ainda não sabemos se ela conseguirá ser como eles, afinal a artista ainda tem potencial para ser maior do que é, mas já merece um culto tão grande quanto a banda e o artista que ela citou.

Nota: 8

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