Janelle Monáe entre o cálculo e a alma em ‘Electric Lady’

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Quando um trabalho propõe estética e substância em torno da palavra “conceitual”, automaticamente nossa expectativa gira em torno de uma peça com conteúdo (seja lírico, seja intelectual, etc) e que tome por fundamento a defesa de uma ideia. Em Electric Lady, é exatamente o que se deve esperar de Janelle Monáe. Porém, se a carga “conceito” tangencia sugerir subjetividade, e talvez um certo afastamento do que é mais facilmente absorvido pela maior parte do público, não é isso que acontece com o mais novo feito da cantora. A narrativa é de fácil digestão, direta, sem floreios, mas com extremo apuro técnico.

Ao revestir o álbum de roteiro, Monáe dá prosseguimento ao iniciado lá atrás, com o lançamento de seu EP, Metropolis (2007), e perpetuado no aclamado The Archandroid (2010). Electric Lady, em 2013, nos apresenta a mais dois capítulos (Suítes IV e V) da saga iniciada no passado: a história de Cindi Mayweather (uma espécie de alter ego da moça), uma android que ousa se apaixonar por um humano, imagem que representa todas as formas de amor refutadas pelo preconceito. E, assim, somos apresentados a uma série de canções que permeiam temas com origem no argumento de superação, de liberdade, de tolerância e de celebração da afetividade, e não são necessárias doses de abstração para entender as mensagens, muito menos para se identificar com elas.

Estamos diante de um álbum meticulosamente pensado, de arquitetura coesa, o qual nos propõe um passeio por dimensões que em mãos de outros artistas tendem a cair em lugar comum (como arranjos repletos de groove, soul e r&b de raiz), ao mesmo tempo em que parece indicar um novo horizonte para essas referências. A aura ficção-científica que permeia o álbum dá conta do futuro; o resgate das influências de Monáe dão conta do olhar para o passado. Temos em Electric Lady uma descida de nível épico em relação ao seu predecessor: sua roupagem é menos robusta, menos pomposa, mais leve, mais despreocupado. Mas não por isso é menos relevante, tendo em vista que a todo momento uma surpresa nos salta aos ouvidos, como solos de guitarra inspirados, ou orquestras embalando raps e até levadas reggae com tom de despedida.

As músicas que contam a história elaborada pela cantora são incrivelmente consistentes. Nenhuma delas (e quando digo isso realmente acredito no que estou dizendo) merece advertência negativa. O que torna superior o audacioso projeto, tendo em vista que consegue reunir proposta e talento em altos níveis. A suíte IV, primeira metade do álbum, detêm as canções mais carismáticas, e, portanto, mais passíveis de sucesso comercial. Se não me falha a memória, não houve esse ano início de álbum que contasse com tamanha regularidade. Repleto de participações de luxo, até nisso a moça acerta. Prince, em “Give ‘Em what they love” (repleta de entrega vocal e ginga), Erykah Badu, em “Q.U.E.E.N”, Solange Knowles, em “Electric Lady” (ambas hinos à liberdade de poder ser como se quer), Miguel, em “Prime Time” (uma balada de simplicidade verdadeira e encantadora) e Speranza Spalding, em “Dorothy Dandridge” (essa última vem ao final do disco) relevam escolhas minuciosas, que vão desde lendas a promessas do meio musical, dando um tom coerente à própria natureza da artista, e ao que ela considerou apropriado para representar o aspecto híbrido do novo e do antigo presentes no tema da obra.

A segunda metade, por sua vez, Suíte V, empalidece diante da excelência que acabamos de presenciar, mas, mesmo assim, detém o charme para não diminuir o álbum. “It’s Code” nos transporta à doçura de um jovem Michael Jackson da época Jackson 5 e carrega na cartilha soul-com-propriedade, assim como “Victory” nos remete a uma jovem e inspirada Lauryn Hill. “Sally Ride”, por sua vez, é uma balada inspiradíssima que eleva a voz da cantora ao nirvana das performances perfeitas. Aliás, algo que deve ser ressaltado, não porque seja novidade, mas porque soa humanamente inacreditável, é o que Monáe consegue fazer com sua voz ao longo do álbum. Competente, é espontânea sem afetação, é poderosa sem exageros. Ela parece se dedicar às canções com afinco, sempre conferindo emoção aos versos mais comuns. Por fim, a jornada se despede com a singela “What an Experience”, a qual não nos provoca sentimentos pequenos. Trata-se de um belo fechamento a um trabalho repleto de cálculo e alma. “I can really feel it“, Monáe canta. Nós também sentimos.

Cálculo e alma. Talvez sejam essas as palavras que melhor representem um álbum que consegue reunir a audácia de corporificar com talento musical uma ideia pré-formada. Tarefa esta feita com leveza, com uma coerência tão apropriada, que soa ficcional, de tão difícil de se acreditar. Se a cantora, e seu jeito repleto de personalidade e atitude, já figurava destacada dentre seus pares, é Electric Lady que a eleva. Poucos são os que conseguem realizar o básico com opulência de formas e ideias. Foi através de apuro intelectual, inspiração sentimental e espontaneidade de talento que Janelle Monáe provou ser uma das melhores. Eletric Lady pode não conquistar massas, mas consegue o mérito de sugerir, provocar e divertir com algo a dizer. Monáe, pode continuar dizendo.

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