Arctic Monkeys e as tentativas de amadurecimento

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Às vezes, amadurecer também significa a perda da identidade. É onde as atitudes idiossincráticas e certa dose de niilismo dão lugar a sensos de responsabilidades e posturas associáveis diante daquilo que até pouco tempo atrás era visto com asco, fazendo com que tal mudança de pensamentos  e modos possam se configurar como um olhar maduro para velhas abstrações juvenis sobre as questões universais, decorrendo que, dependendo da forma como calhe o amadurecimento, de forma espontânea ou abrupta, ocorre no âmago do indivíduo a perda ou não da identidade que fez o que ele é hoje.

Tal questão é fator crucial no universo musical, no qual o artista ou a banda se vê com sua obra entre o se manter no comodismo de sempre fazer o mesmo que a fez angariar um público fiel ou amadurecer as suas propostas sonoras e conceituais, apreendidas com as experiências ao longo das trajetórias e agregando mais influências para o resultado final do seu trabalho, correndo o risco de entregar algo falho por não apresentar a mesma força criativa das obras anteriores e desagradar parte da parcela do seu público. Ou pode ser um fator positivo se considerar que uma banda pode sempre se superar no seu crescente processo de amadurecimento, produzindo discos não melhores ou piores que os outros, mas uma discografia de grandes feitos com distintas qualidades.

No caso particular do Arctic Monkeys, amadurecer não parecer ser um processo fácil pra eles. Alçados a um dos maiores hypes da década passada, no auge da plataforma do MySpace, logo no primeiro disco, o quarteto de Sheffield, Inglaterra, entregou um trabalho que capturava o zeitgeist da sua geração, tal como outras bandas inglesas fizeram ao longo das últimas décadas, desde que o rock se consolidou como um estilo musical, a saber The Kinks nos anos 60, The Clash nos 70, The Smiths nos 80 e o Blur nos anos 90. Empenhando uma forte efervescência juvenil, Whatever People Say I Am, Thats What Im Not, em meios as crônicas sobre as fugacidade da juventude inglesa e uma urgência típica da idade, trouxe um novo frescor e perspectiva para o batido rock inglês, desde que Carl Barat e Pete Dorhety implodiram o The Libertines anos antes. Imediato e pronto para conquistar as pistas de danças, o disco teve uma sequência natural, Favourite Worst Nightmare, que primou no amadurecimento sonoro, deixando-o mais limpo e acentuando o vocal de Alex Turner, mas sem deixar a urgência e as crônicas do cotidiano de lado, firmando a identidade da banda.

No passo seguinte, veio a brusca mudança que norteia a banda até os dias de hoje. Apadrinhados por Josh Homme e levados para o deserto americano, a banda lança Humbug, um disco que abandona o espírito Swinging London e a espontaneidade tão cara nos discos antecessores e adere a virilidade e as jaquetas de couro do Stoner Rock de bandas como a do seu padrinho, o Queens of The Stone Age. O novo amadurecimento surge então engessado, o que era novidade se torna pastiche de um ideal de Classic Rock que soa desgastado logo nas primeiras audições, embora tenha acertos que poderia dar rumos maiores para a banda, como uma postura vigorosa e mais centrada das canções. Mas o disco que nasceu em sequência dessa nova maturidade, Suck It and See se revelou um grande fiasco em termos sonoros e de composição por se mostrar  falho na mistura entre o peso da influência de Josh Homme e das amenidades dos projetos paralelos de Alex Turner, The Last Shadow Puppets e a trilha sonora composta para o filme Submarine.

Agora, com AM, a banda se firma em sua nova maturidade e, principalmente, identidade. É o amadurecimento de uma ideia nascida a partir de Humbug e que deveria ter ocorrido em Suck It and See. A crueza de antes é amenizada e as músicas aparecem mais soltas, ainda que a cadência e o andamento permaneçam pressas ao estilo Classic Rock adotado, ao contrário da eficiente dinâmica presente nos primeiros discos da banda. Mas há aqui o um aceno para outros horizontes, como os elementos de R’n’B em uma das faixas mais bem produzida do disco, a ótima Knee Socks, que ameniza o peso dos instrumentos e faz cama para a voz  de Alex Turner discorrer versos sobre “uma garota com meias até os joelhos” e para as vozes em falsetes que dominam o refrão. Aliás, vozes em falsetes, assim com backing vocals, estão presentes em várias músicas de AM, às vezes de forma acertada como em  R U Mine?, de riffs certeiros e pegada dançante; às vezes de forma nula, como nos “uh-la-las” da fraca Mad Sounds, que assim como as outras baladas existentes em AM são os maiores pontos fracos do discos por não apresentaram os apreços melódicos e a luminosidade de outras baladas como Riot Van e Cornestone.

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É possível notar nas quatro músicas que abrem o disco um caminho saudável que o Arctic Monkeys pode seguir com essa forma de fazer música que emula o Classic Rock dos anos 70, onde peso guitarras e a marcação da bateria ditam as músicas. Entretanto, é em músicas como Why’d You Only Call Me When You’re High?, Fireside e na citada Knee Socks podem dar um rumo de maturidade para banda, se arriscando em gêneros díspares e construindo uma nova identidade com as possibilidades existentes.

Mas se Alex Turner afirma que AM é o mais original da discografia do Arctic Monkeys, e ao escutarmos o disco percebemos a emulação de sons não só das influências (perceba a semelhança entre War Pigs, do Black Sabbath, com a faixa Arabella), como também a própria obra da banda (é possível fazer comparações entre R U Mine? e Crying Lightning), fica difícil  prever um amadurecimento da banda se o líder dela entende como original requentar um punhados de ideias há muito tempo estabelecidas e eficientemente já concretizadas no seu próprio momento.

Nota: 6

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