O Sábado particular de Cícero

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Existem diversas formas de um artista lidar com um grande êxito, seja comercial e/ou crítico. Das mais extremas delas é a implosão da obra, acarretando a entrada no chamado hiato por tempo indeterminado, onde o trato musical deixa de ser universal e mira no próprio umbigo, ou pode levar a uma guinada conceitual da obra e assustar uma grande parcela de admiradores que conquistou com a consagrada obra anterior, se arriscando em um trabalho de negação da sua própria arte, que pode dar lugar para uma consagração ainda maior ou para uma possível queda vertiginosa ao limbo do esquecimento.

Talvez nem fosse esperado, mas Cícero experimentou uma pequena consagração com o seu primeiro disco solo. Digo pequeno em relação ao público que alcançou, particularmente naqueles que sentem uma necessidade em encontrar a cada mistura de guitarras com samba-canção um novo Marcelo Camelo ou um Rodrigo Amarante,  que não formam vozes suficientes para fazer as canções de apartamentos dele  serem ouvidas por todo o país, mas que fez um grande burburinho na cena que habita a música alternativa brasileira – independente do que o termo “alternativa” venha a ser ou a abrigar.

Esse maior atenção para sua obra até então inédito para Cícero, se considerar a curta vida anônima que a sua antiga banda – Alice – teve,   talvez tenha causado uma certa inquietação no artista, fazendo com que, segundo em entrevista dada ao site do Jornal O Globo, ele tenha resolvido dar uma guinada na euforia em torno da obra dele, realizando no seu segundo disco uma obra intimista, que pudesse  falar de forma franca com o seu público sobre coisas que ele sente e pensa. Público esse que Cícero pensa angariar com mais “alguns discos, alguns anos, mais algumas escolhas” e não com um primeiro disco  ainda não concreto com as suas intenções.

É com esses ensejos de Cícero que Sábado aparece como um disco não apenas honesto, mas corajoso. Porém, se uma obra deve falar apenas com o seu conteúdo para funcionar a ligação entre o artista e a pessoa que se depara com ela, independente dos fatores externos que a fizeram existir, o segundo disco de Cícero reflete muito bem as suas intenções pós-Canções de Apartamento, entre o incômodo glamour e a desconfiança do sucesso. A começar pela forma como Sábado se apresenta em relação ao anterior, ainda que as canções continuem de apartamento, o olhar para a vida que o rodeia é tratada em fragmentos, procurando os gestos, as pequenas ações, em contraponto com a maneira um tanto festiva em encarar o misto de nostalgia e melancolia que emerge das letras e melodias.

No anterior, é como se Cícero sentasse no chão da sala cercado de livros, discos, filmes e memórias para compor as canções, aqui temos o mesmo Cícero olhando pela janela, no final de uma tarde de sábado, observando a vida cotidiana, a vida amarela, registrando em  fragmentadas letras, organizadas entre haikais e poesia concreta, o “caminhão de gás indo e vindo”, “as perna magrela”, “o céu pesado que não caí”, “as duas quadras”, sugerindo uma ideia de banalidade que poderiam soar fugaz se não fosse a firme presença dos instrumentos que dão a tônica das melodias.  Sai o som encorpado, solar, de arranjos truncados, por vezes sujos e arredios, e entra um som rarefeito, nublado, tal como as letras, mas que não se perde nas suas fruições.

A coragem de Cícero em fazer uma obra minimalista poderia fazê-lo um artista preguiçoso ou mesmo covarde por negar o seu sucesso, mas  ao entregar um disco sem pretensões que registra um momento, uma fase,  da vida dele, ao invés de querer fazer algo calculado pra soar idêntico ao anterior com intenção de repetir a euforia, sem o análise do que tem em mãos, entregando uma obra nula de conteúdo.  O seu Sábado é um modo particular de se fazer pensar a carreira, o sucesso, ou mesmo a vida, um disco que faz pra si e o compartilha conosco, podendo facilmente ser considerado um disco de transição que ainda não aponta o norte do seu futuro, onde seu presente ainda não alcançou  um lugar seguro, ficando uma incógnita se algum dia ele vai chegar lá, embora que ele já tenha demonstrado que pode conseguir alcançar metas maiores, mas no tempo que ele se sentir preparado para encará-las.

Nota: 8

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