Franz Ferdinand: Right Action?

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Nós, consumidores de música (e de qualquer outra expressão de arte), tendemos a enfeitar nosso senso crítico com os adornos da expectativa. Essas inter-relações entre a formação de nossa avaliação e a famigerada ideia pré-existente é discussão acadêmica para uma dissertação, mas, por inspiração desse (sub?super?) valorizado novo álbum de Franz Ferdinand, cabe esse questionamento.

Fosse esse álbum uma novidade, ou seja, o resultado criativo de uma banda estreante, o receberíamos do mesmo modo? A reflexão continua: tendo essa querida banda escocesa três bons discos em sua bagagem, este quarto, Right Thoughts, Right Words, Right Action, teria obtido a mesma recepção?  Quando ouvimos Alex Kapranos entoar “I believe there`s nothing to believe” depois de usar a imagem de morangos frescos para indicar efemeridade, o que fornecemos a ele? Crédito pelos trabalhos anteriormente efetuados ou  rigoroso incômodo diante da superficialidade da imagem?  Ao meu ver, eis a resposta: depende do ouvinte. E, aos ouvidos deste que vos escreve, este efeito paradoxal vem à tona e circunda os trinta e tantos minutos deste disco: entrego-me à brincadeira ou brinco de ser sério? Right Thoughts… evoca esse misto de sugestões: diversão x constrangimento, ironia fina x piada aleatória. Entregar-se ou resistir?

Discussões e impressões à parte, eis os fatos: estão aqui todos os elementos que criaram a identidade da banda, como as melodias-chiclete, o divertimento despretensioso, as guitarras destacadas nunca imperceptíveis. Assim, os que esperavam um passo à frente, desistam. Franz Ferdinand fez questão de ficar onde sempre esteve. Esse é um álbum de segurança, sem riscos, mantenedor de cofres. Vai vender, vai repercutir nos shows. Na verdade, não foi um álbum concebido propriamente em estúdio, mas pensado, escrito e atuado em meio a uma turnê. Essa desconcentração proposital obviamente influenciou na elaboração do trabalho, que incita uma vivacidade mais adolescente do que orgânica.

É certo que diante de uma banda que possui hits como “Take me Out“, ou “This Fire“, músicas com grande levada pop, sem segredos, nem aprofundamentos, não se deve esperar uma “Stairway to Heaven“. Mas é o relance dado por uma “Treason! Animals“, melhor canção do álbum (a que mais consegue aliar simplicidade a maturidade),  que se pressupõe a posição de que, se mais pensado, um trabalho mais elaborado poderia ter sido feito. O resultado foram músicas inofensivas, com gás-não-sei-se-durável, como “Right Action” (nada mais do que ok), “Love Illumination” (rimar ilumination com elevation, sério?), além de “Brief Enconteurs” ( um flerte com reggae mais tímido do que simpático).

Ademais, temos ótimos momentos: a animada e brincalhona-no-ponto “Bullet“, que fica na cabeça tanto quanto a bala sobre a qual fala a letra; a misteriosa-charmosa “The Universe Expanded“; a dançante “Stand on the Horizon“, e o belo encerramento dado por “Goodbye Lovers and Friends“, classuda e bem humorada ( “don`t play pop music, you know I hate pop music…”/ “…you can laugh as if we`re still together…”). Os pontos mais fracos do álbum, por sua vez, ficam para a irrelevante “Fresh Strawberries” (que não é salva pela harmonia eficiente do refrão) e “Evil Eye” (essa lembra demais tema de festa de Halloween de curso de inglês para angariar minha consideração). E, como não poderia deixar de citar, destacam-se positivamente, o tempo inteiro, inclusive nas canções mais fracas, o poder extremo que esses escoceses têm de construir riffs de guitarra significativos e, assim, de conquistar o ouvinte pela sedução hipnotizante de ritmos matematicamente construídos para agradar.

Veja como os feitiços podem realmente voltar-se contra o autor: feito demais para agradar, esqueceu-se de entregar ao álbum alma e espontaneidade necessários para que formássemos uma opinião não contaminada pela espera. A carência de uma personalidade autônoma para o álbum, bem como a constante auto-referência, interferem na experiência. Fosse um debut, o terreno virgem daria outros contornos. Porém, para uma discografia em construção, soar como sempre traz consigo uma ambivalência prejudicial, caso se opte pelos lugares confortáveis do caminho, em vez de ousar percorrer os riscos inerentes a ele. Assim, eis um Franz Ferdinand de fácil acepção e rápida assimilação. Feito para se gostar, não sei se para durar. Fica a impressão de que a contribuição para essa incerteza reside no fato de que o currículo da banda indica mais engessamento do que evolução. A subjetividade de nossos ouvidos há de decidir por nós.

Nota: 7,0

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