White Lies e Big TV: o passado ainda nos serve

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Há algo de perigoso em revisitar influências. Percorre-se uma tênue linha entre a imitação e a originalidade. Na verdade, é o caminho óbvio do incompetente, que, inabilidoso, recicla momentos que deram certo, reproduzindo fórmulas, sem adições criativas relevantes. Em contrapartida, trata-se do ambiente favorável para o artista inteligente, que incorpora ecos do passado à produção presente, dando, com contribuições pessoais, feições de novidade ao que soa como algo que já se viu/ouviu anteriormente.

Verdade seja dita: não há produção artística isenta de incorporações externas. Com exceção de inatos vanguardistas (um salve a Bjork, uma reverência a Tom Zé), é impossível não perceber que arte resulta num subproduto do que nos cerca, e nisso se incluem os demais artistas, os quais se relacionam de modo tal, que colchas de retalhos criativos vão se costurando ao bel-prazer do criador. Realizador este, que corajosamente revisita, deixa-se interferir e produz o novo, com retoques impulsionados pelos ares que viveu. É o caso de White Lies, que, inteligentemente, entrega todas suas influências, sem máscaras, sem covardia. Com esperteza e talento, pois.

Esta é a tônica de Big TV, terceiro disco de estúdio do trio: se antes eles soavam anos 80, agora eles praticamente se transportam para essa época. Se versos dos primeiros discos lembravam Tears for Fears, agora músicas inteiras parecem ter viajado no tempo, e pousado em pleno 2013. Um bom exemplo é “Mother Tongue“, um dos pontos altos do álbum, e parece ser esse o grande motivo: a semelhança da melodia (principalmente o refrão) entoada por Harry McVeigh com a banda oitentista é bem-vinda, eleva saudosismo e rende uma linda homenagem (in)voluntária. O mesmo se pode dizer de “Tricky to Love” e sua rima óbvia com qualquer coisa que A-Ha tenha feito.

Os vocais límpidos, repletos de ecos charmosos (vide que década?), caminho também eficientemente traçado por bandas como Editors e Interpol, percorrem todo o disco, reforçando a aura vintage. Big TV tem a pretensão de reproduzir os efeitos da distância sobre um amor, e o faz com eficiência, por meio de melodias no mais simpático tom melancólico, letras medianas, sem maravilhas, mas com o plus (e talvez aqui seja o maior trunfo) de encantar por conta do lugar a que nos transporta.

Se em 2009 White Lies soavam como promessas, com Big TV eles as cumprem (Ritual, de 2011, apesar de bom, deixou a confirmação em stand by). E, apesar de compor um álbum irregular, produz momentos de altíssimo nível, encabeçado pelas músicas de trabalho “There Goes Our Love Again” – a qual rendeu essa beleza de clipe acima – e “Getting Even” (ambas afiliadas de Joy DivisionDepeche Mode e Human League), desde já hinos perfeitos que traduzem como bem explorar uma época sem soar desgastado. Ambas são pops irretocáveis, atemporais de tão boas, e talvez por isso soem mais novas do que envelhecidas.

Destacam-se também “Goldmine” (música que encerra o trabalho, surpreende por ter sido feita em apenas 4 horas, para completar o álbum, que até então contava com apenas 9 faixas. Quedou por ser praticamente uma autorreferência, tendo em vista que poderia facilmente constar no excelente debut, sem dever nada) e “Be your Man” (outra canção que reúne gás e empolgação, e impulsiona os ouvidos, do tipo que prende a atenção e inevitavelmente te faz aumentar o volume).

Portanto, a conclusão a que se pode chegar diante de Big TV é que, apesar de não esbanjar excelência, não tangencia irrelevância de modo algum. Trata-se de um disco que, além de prometer ótimos momentos ao vivo, efetivamente ganha o ouvinte sem esforço. Por saber tratar com reverência os ritmos que impulsionam os arranjos que lhe são confortáveis, o trio presenteia saudosos, mas não deixa de lançar iscas aos que anseiam por novidade. E é por aliar respeito a boas doses de talento, que White Lies se afastam de meras cópias, aproximando-se do mérito de corporificar substância a uma roupagem já conhecida, tornando o passado numa roupa que ainda nos serve. Assim, driblam o perigo do mais-do-mesmo, e firmam-se como suspiros modernos de bons tempos, que podem ser revividos sem medo, desde que nas mãos de quem sabe bem o que faz.

Nota: 7,5

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