Kanye West e Yeezus: o direito de ser arrogante

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Arrogância é um elemento polêmico por natureza, e, à primeira vista, é o tipo de característica que causa repulsa. No meio artístico, não é incomum encontrarmos nomes arrogantes, senhores de si, inebriados pela fama, pelo poder, e pelo talento, quer ele exista ou não.  Grande parte sucumbe à antipatia, por julgar-se estelar demais, e por supervalorizar um passe suficientemente frágil (embora ilusoriamente digno) para sustentar a ostentação. (alô, alô, Liam Gallagher…) Outra parte, por sua vez, parece conquistar o direito de ser arrogante, ao assumir uma autoridade criativa justificadora da soberba e do temperamento de majestade. Kanye West é um dos exemplos máximos desse segundo grupo, um artista capaz de jogar a favor de seu maior defeito, revertendo-o como munição para realizar trabalhos poderosos.

Yeezus, seu sexto trabalho, sua segunda-obra prima consecutiva (My beautiful Dark Twisted Fantasy, de 2010, de tão bom, há pouco concedia a Kanye West o direito de errar por mais 3 ou 4 trabalhos), comprova o poder do rapaz, tanto como produtor (com equivalente habilidade de trabalhar com produtores excepcionais, a exemplo de Daft Punk e Rick Rubin), quanto como letrista visceral. O homem não poupa agressão ao seu opressor, seja ele uma ex, um racista, a indústria musical. A impulsividade, a ira, a insatisfação contra o que ele julga injusto estão mais presentes do que nunca, imersos num maravilhoso mosaico de efeitos, samplers, riffs de guitarra elegantes, sirenes, gritos, todos numa uniformidade sinuosa, confusamente encaixados para surpreender. 

Trata-se de um álbum pouco comercial, e é essa percepção que o torna livre, imprevisível, sem amarras formulaicas feitas para o rádio. Kanye se mostra desenvolto, no ápice de sua segurança criativa. A estratégia de não elaborar estratagemas trouxe uma vivacidade instigante a um trabalho nascido de um desejo de gastar anarquia. Da primeira à última faixa, embarca-se numa viagem nervosa e acelerada, repleta de momentos raivosos, com direito a machucados revividos de maneira dura, os quais parecem indignar o rapper: do vazio trazido pelo excesso de poder e dinheiro, ao amor que não resistiu, tudo é alvo. Sem pudor, desferem-se golpes certeiros, provocações ofensivas, em muitos momentos especialmente direcionadas às mulheres, resultando em trechos claramente machistas e repletos de misoginia.

Em Yeezus, não há música menor. A impressão de perfeição percorre o disco justamente por ele se mostrar crível o tempo inteiro, e sedutor em sua austeridade. Musicalmente, soa inventivo e estimulante do início ao fim. O impulso para o labirinto de Yeezus é dado já no primeiro contato, quando somos jogados a um efeito contorcido que cria o universo de aversão contra ao que nos é imposto verticalmente. “He’ll give us what we need, it may not be what we want” representa verso significativo contra o que se protesta, e trata de tema recorrente por toda a obra. Em seguida, o muito possível primeiro single, “Black Skinhead” acrescenta em energia e ferocidade contra o racismo, e, junto a “New Slaves”, forma duas substanciosas pérolas de autoafirmação, que nem de longe soam como discursos vazios. Pelo contrário, reafirmam uma contestação digna e necessária de um homem negro, que, na figura nada passiva de Kanye West, contra-ataca a hipocrisia que desmerece, rotula e limita os oprimidos pela cor nos mais diversos campos da dinâmica em sociedade.

E o que dizer de um artista que se intitula divino? Em “I am a God”, Kanye West conversa em pé de igualdade com Jesus, e se compara a ele. Trata-se de um grito de imposição (e realmente vários gritos aparecem na parte final da música): aqui se desconhece a humildade, há um auto-reconhecimento não menos que congratulatório. Proclama-se pretensão: “I am a god, hurry up with my damn massage, hurry up my damn menage” é uma blasfêmia contra a humildade, o reforço do seu próprio pedestal. “Hold my Liquor”, que, assim como em “I am a God“, conta com a charmosa participação de Justin (Bon Iver) Vernon, traz um riff de guitarra que só acrescenta em beleza a um alter-ego destrutivo muito bem resumido em um verso: “soulmates become soulless”.

“I’m in it” extravasa em pornografia: o verso “Put my fist in her like a civil rights sign” mostra uma imagem de dominação desaforada que visa reforçar, não apenas poder, mas também o esforço de humilhar o que se desrespeita, neste caso, uma mulher cuja função é ser mero objeto.  “Blood on the Leaves” é um exercício-modelo de como lidar bem com um sampler. “Strange Fruit”, na voz de Nina Simone, serve como veste de luxo a uma melodia deliciosa sobre um tema amargo: divórcio. O desarranjo de um relacionamento traz um tom pessoal, e não dá pra não sentir o arrependimento contido nos versos “We could have been somebody”. A música pode facilmente servir de segundo single. “Guilt trip” acompanha a metade lamuriosa do disco (sobre sentimento, jamais sentimental), contando a história de duas pessoas fadadas ao fracasso por viverem escolhas diferentes, numa música repleta de ginga, dançante até. Por fim, enquanto “Send it up” traz sirenes perturbadoras, como alertas ecoando incessantes em tom emergencial, “Bound 2” confere samplers que beiram a ironia para criticar o amor romântico, o qual é desconstruído basicamente numa estrofe que se inicia com “I wanna fuck you hard on the sink, after that give you something to drink”, passando por “she asked me what I wish for on my wishlist, have you ever asked your bich for other bitches?“. R.I.P. doçura. Long live perversão.

Talvez seja essa a grande sacada de Yeezus. A possibilidade de desconstruir as insatisfações do autor, pontos abomináveis para a persona arrogante de kanye West, de forma rude e sem obviedades, por meio de uma rispidez necessária ao tom nervoso que permeia todo o álbum. Isso tudo como se ele possuísse aval para ultrapassar os limites, sejam éticos ou argumentativos. Como se Kanye, o homem, não falhasse; o mundo que errou com ele. Não interessa se ele tem razão no que diz. O que importa é que ele sabe dizer. E a liberdade de fazê-lo resulta constantemente em brilhantismo, como se ele desse um passo além do hip hop, do rap e a qualquer rótulo ao qual esteja preso. A prisão, para Kanye West, é um convite à fuga, e nada parece detê-lo.

Nota: 10

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