A complexa simplicidade de Random Access Memories

daftpunkrandom

Toda forma de cultura é moldada no impasse entre o original e a cópia, o influente e o inspirado, o antigo e o novo. No que tange à música, o som é o resultado sensorial da união de elementos mínimos que o compõem e representam matematicamente a vibração do ar, que, em frequências distintas, formam as notas musicais. Do arranjo destas, surgem as melodias, cuja origem pode advir do mais exótico instrumento (por exemplo, oboé- sempre adorei o som desse nome) , ao mais natural (a voz). A arte musical é historicamente atrelada à combinação da presença de dois elementos quase essenciais: o humano e o instrumental. A contribuição destes dois elementos à música é tudo que nos é possibilitado conhecer: uma infinidade de sensações sonoras, que reiteradamente se revisitam, se alimentam umas das outras, se reestruturam, em novas formas, de fontes diferentes.

Quem diria há décadas atrás que algo como o computador poderia existir? E mais: que ele viria a servir para produzir música? O que há pouco tempo poderia ser considerado ficção científica, hoje é brincadeira de criança. Com um simples Ipad, o bebê mais esperto é capaz de produzir sons, pressionando os locais corretos. As máquinas (computadores), antes objetos do futuro, hoje são realidades do presente, e, nas mãos de artistas com talento, são verdadeiros instrumentos à serviço da criatividade. A música eletrônica, por originar-se em fonte adversa da tradicional em sua forma de composição, passa também por diversas formas de manipulação, do feijão com arroz à experimentação; e, possui, obviamente, seus mais diversos representantes, dos superficiais aos inventivos. E, ao falar em música eletrônica e inventividade, falamos necessariamente de Daft Punk, o mundialmente conhecido duo francês de house e synthpop, que com um novo e quarto disco na praça, Random Access Memories, fez com que a música fosse debatida, além de ouvida. Com o novo trabalho, de background repleto de conceito, discurso e intenção, Thomas Bangalter e Guy-manuel de Homem-Christo empreenderam esforço de acrescentar profundidade ao que já fora visto como artificial. O mais interessante nisso é que se torna irrelevante saber se os rapazes foram bem sucedidos nesse objetivo; não obstante qualquer finalidade, RAM é um álbum fácil, redondo, assimilável e curiosamente sofisticado.

Toda a expectativa criada antes mesmo do lançamento do álbum, muito por conta da pretensiosa estratégia de divulgação, que, focando no mistério, revelava facetas diferentes do que já se conhecera do trabalho da banda, resultou numa ansiedade coletiva que favoreceu parcialmente o álbum, dividindo público e crítica. Com o lançamento, muitos que esperavam “além disso”, devem ter se perguntado: “ah, é isso?”. O que se pronunciava surpreendente para a música mundial, na verdade quedou-se “apenas” inovador dentro de uma discografia específica. O que se vendeu como resposta criativa para um futuro musical infértil, por meio de resgate retificado do passado, soa como uma reformulação de um trabalho pessoal. É como se a dupla, em vez dar vida à música, na verdade despertasse algo que talvez não tivesse adquirido na sua própria.

Em RAM, não há nada de muito diferente, incomum, ou inovador do que já se tenha feito. O álbum, pode ser, sim, tudo isso, mas apenas para o que o Daft Punk acostumou-se a fazer. Inserindo o álbum na amplitude do universo, ele se encaixa confortavelmente entre os seus, coatuando parelha e organicamente, por exemplo, com álbuns já realizados por Andy Butler, e seu Hercules & Love Affair, ou até mesmo Escort, artistas que preencheram os vazios da disco music, que completaram em organicidade, humanidade e emotividade ritmos e batidas que caem fácil no maneirismo do que poderia soar apenas sintético. Quando se avalia o disco como o quarto entre outros três (Homework, Discovery, Human after all, mais semelhantes entre si), de propostas tão distintas, aí sim todo significado e proposição se aflora, conferindo ao álbum o ponto alto de uma discografia extremamente bem sucedida.

Gravando com músicos de ponta, ao vivo, em diferentes estúdios e cidades, método ambicioso para quem já fez um disco inteiro dentro de um quarto, Thomas e Guy-Manuel conferiram uma aura de complexidade ao simples. Diferente do que se espera de um duo eletrônico, samplers e batidas repetitivas deram lugar à melodias multidimensionais, a arranjos repletos de camadas, com direito a corais, orquestras, inserções de metais e sopros, guitarras épicas, vocais inusitados, etc. Isso tudo dentro de uma estética majoritariamente pop, sem se dissociar das personas robóticas que conferem o apelo cult-misterioso à dupla, e, que ironicamente, conflitam com o apelo orgânico e filiado ao tradicional ora propalado.

O resultado de todo esse esforço é um álbum extremamente coeso, que passeia com naturalidade entre a balada e a instabilidade, entre o mexer de ombros ao estalar de dedos, da repetição de frases-chiclete à profusão elaborada de sons e ritmos. As letras são simples, diretas, mas sinceras, sem firulas. Quando Pharrell Williams, ícone do R&B,  clama para que tirem sua camisa e espremam o seu suor, o desejo de estar numa pista de dança ( e muito suado) suplanta qualquer imagem de nojo. O mesmo desejo acompanha o maior hit do ano, “Get Lucky“, música com uma ginga tão natural, de uma simpatia avassaladora demais para ser descartada, ou acusada de superficial. Tratam-se de músicas que parecem alicerçar seu maior significado na empatia coletiva, no desejo puro de ser feliz sem preocupações, por alguns bons minutos, com um pop despretensioso e bem feito. “Give life back to music” forma, com as duas citadas, uma trilogia interessante que rememora um pouco dos anos 70, uma época em que a música só parecia atingir sua finalidade se acompanhada da dança, uma espécie de  consequência indissociável do som.

The Game of Love” e “Within” são os momentos-fofura do álbum, românticas, de letras emocionais e de poesia singela. “Giorgio by Moroder” (homenagem apropriada a Giorgio Moroder, que introduz um monólogo interessante do famoso produtor sobre sua carreira e finda por apresentar-nos a 7 minutos de excelente excursão musical de sintetizadores) , “Touch” (com participação do músico Paul Williams, cresce na segunda metade e confere um momento de beleza instável, com robôs repetindo que ‘a resposta está no amor’), “Beyond” e “Motherboard” (dois bons momentos, uma seguida da outra, funcionam quase como uma trilha sonora para algum filme de roteiro curioso ainda não realizado – a primeira se inicia com uma clássica intervenção orquestrada) e “Contact” (excelente finalização do disco, soa como o encontro de 65daysofstatic com Chemical Brothers) conferem, cada uma a seu estilo, belos momentos instrumentais com   adições eletrônicas fluentes e inspiradoras. “Fragments of Time“, com a participação do produtor Todd Edwards, apresenta doses de gingado Motown Records a um álbum que nem precisava de mais charme.

E, como se já não fosse suficiente, ainda completam o álbum duas das melhores e mais interessantes músicas pop já produzidas neste ano. Julian Casablancas canta “Instant Crush” sob efeitos que caem bem aos seus já bem afeiçoados falsetos, tão presentes em seus trabalhos solo e polemicamente presentes nos recentes discos de sua banda de origem. De melodia convidativa ao sentir, “Instant Crush” é do tipo que destaca o momento, que aguça o ouvido, daquela faixa que te faz pausar uma conversa, que automaticamente te faz aumentar o volume para ouvir mais atentamente. Já “Doin’ it Right” talvez seja a canção que sintetize melhor o tema de RAM. O refrão fica por conta dos robôs, que entoam “Doin’ it right, everybody will be dancing…” repetidamente. O curioso é que, ao longo da repetição, eles parecem embutir uma negativa no início do verso, tornando o que seria uma afirmação em “you’re NOT doin’ it right“. Caso se confirme essa impressão, dá-se um toque sutil de genialidade à proposta crítica do refazimento da própria música eletrônica. Noah Lennox, da Panda Bear, participa desta, acrescentando estilo próprio à uma música ganha já em seus primeiros segundos (“If you lose your way tonight, thats how you know the magic’s right” dá o tom libertador que o experimentalismo traria ao “fazer música”).

Assim, deixando de lado qualquer polemização que gire em torno do que é marketing, do que é estratégia, do que é real ou fake, RAM é indubitavelmente um ótimo disco, de excelente produção, e repleto de carisma, da primeira à última canção. O que cria um bom disco é exatamente isso: critério na sua criação e empatia na forma como afeta os seus ouvintes. As demais conquistas são consequências naturais do tempo: o futuro nos dirá de que forma irá envelhecer um álbum entregue com a aparente pretensão de dividir águas. Analisando do presente, o tal resgate da naturalidade, da harmonia humana perdida nos confins de tempos recentes em que se acostumou a realizar música sem o coração, essa pretensa conferência de vida ao que aparentava estar morto…. isso tudo é apenas discurso. Os fatos estão gravados em vibrações de ar, que se tornaram notas, que viraram melodias, oriundas de guitarras ou programas de computadores, em 74 minutos de genuína diversão. Dissociar o novo trabalho da Daft Punk de todo o arquétipo teórico que se criou ao seu redor (justiça seja feita, culpa muita de seus próprios realizadores), só acrescenta valor ao disco. Analisá-lo pelo que é, em sua simplicidade existencial, como mais um entre tantos, talvez o torne mais especial, justamente por ser tão melhor do que muitos. O engano é pensá-lo como o melhor dentre todos.

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