Cobertura: A sexta-feira do Abril Pro Rock 2013

Abril-Pro-Rock-2013

A vigésima primeira edição do Abril pro Rock, ocorrida nos últimos dias 19 e 20, foi marcada pela alta expectativa quanto a shows de dinossauros do rock e do punk, como Television e Dead Kennedys, pela clara polarização de relevância voltada ao segundo dia (a “famosa” noite do rock pesado), principalmente no que tange à escolha do line up, e pela fraca quantidade de público, ao menos no primeiro dia (cerca de 3.500 pessoas, segundo a organização).

Em mais uma noite de chuva (o que parece já ser regra para o Abril pro Rock), a sexta iniciou-se tímida, com um público escasso, e bastante jovem. Parece que o boom de shows internacionais no Recife, bem como a grande quantidade de eventos e festas que hoje fazem parte do cenário cultural da cidade, talvez tenham cooperado para que a opção de parte maciça do público tenha se voltado para outras programações (Abraçaço de Caetano e Cat Power são dois bons – e dispendiosos – investimentos que servem como exemplo). Junte a isso um line up sem muitas novidades, que trouxe shows já vistos por grande parte dos ali presentes (e muito provavelmente pelos ausentes que optaram não conferi-los novamente), tem-se uma receita um tanto quanto insossa.

No mais, foi uma noite que seguiu a fórmula Abril pro Rock de manter sucesso. Não se pode afirmar que o Festival perdeu charme em função da mesmice, afinal é inegável a qualidade dos shows ali apresentados, mas claramente a ‘noite mais leve’ demonstra sinais de desgaste. Quando se privilegia a segurança em detrimento do risco, geralmente se alcança um resultado satisfatório, porém facilmente criticável. Note-se que a aposta inicial no show de Rodrigo Amarante apresentando seu primeiro trabalho solo cumpriria a tarefa de criar um momento determinantemente relevante, porém o cancelamento da apresentação talvez não tenha deixado outra escolha que não a solução mais fácil. Isso coube à Móveis Coloniais de Acaju, que fez apenas a tarefa de casa.

Sendo assim, como já mencionado, os shows funcionaram, de modo geral. Porém, estiveram longe de fazer justiça a noites memoráveis já vivenciadas pelo público,  acostumado a se surpreender. Quem esperou por surpresas, saiu insatisfeito. O que se viu na sexta-feira do Abril foram momentos mecânicos, de inspiração nada especial, quase burocráticos, intermeados por um ou outro espasmo de novidade. Sigamos a eles:

Babi Jacques  e os Sicilianos

301951_627657573914518_669808747_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

Banda teatral, performática, que se esforça o tempo inteiro para soar retrô-chique. Trata-se de mais uma dessas que tenta recriar clima de cabaré-modernoso-circense nos palcos.  Apresentando um disco chamado Coisa Nostra, a banda, devidamente afetada em suas participações, das músicas às intervenções faladas, (principalmente sua vocalista, que parece incorporar uma caricatura de boneca irritante), soa como um grande pastiche de suas referências (a tentativa de trazer a “máfia” para o palco quedou numa proposta mafiosamente artificial). Conclusão: nada de novo, muito de mais do mesmo. Menção negativa para a insatisfação deseducada da banda frente ao fim do tempo destinado para se apresentar, tendo, mesmo com o fechar das cortinas, continuado a tocar, criando um clima indesejado de consternação em quem prestava atenção no acontecido.

Silva

543743_627654633914812_1188536469_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

Dono de um dos melhores discos do ano passado, Claridão, o capixaba Lúcio Silva Souza, trouxe a mesma aura do disco ao palco do APR. Com teclado, bateria e violino, o som intimista foi transportado para um público pequeno, embora interessado, que sabia exatamente o que lhe esperava, e não se decepcionou. As intervenções eletrônicas naturais que dão tom ao álbum trazem ao show uma fineza, um toque de classe ao que é nada mais é do que música de cunho sentimental (em “Posso“, por exemplo, até se chega a perceber pitadas de James Blake: nada mal). Com uma playlist baseada nesse primeiro trabalho, os destaques ficaram com “Claridão“, “Imergir“e um cover nível fofura de “Taí“, de Noel Rosa. O cantor, bem como seu parceiro baterista, Hugo Coutinho, mostraram que sua competência é inversamente proporcional à sua idade, e fizeram da apresentação uma bela confirmação do carisma que arrebatou crítica e seletivo público. Se houve um show que representou a honrosa característica do Abril pro Rock de introduzir o que há de novo e interessante na cena atual da música brasileira, este foi o exemplo da noite.

Television

378318_627655833914692_992134599_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

Television subiu ao palco, apresentado pelo narrador como uma das grandes lendas do rock mundial. O grupo possui dois álbuns indispensáveis em qualquer coleção de CDs e vinis de rock, o debut bastante celebrado Marquee Moon (1977) e o disco Adventure (1978). O Marquee Moon em especial marcou uma geração nos anos 70, o disco levou o punk a outro patamar, foram-se dadas outras direções ao som, bem diferente do punk energético e de três acordes propagado pelos Ramones.

No show, de início vemos o Tom Verleine preocupado com sua guitarra, ele a afina, checa seu set de pedais, antes de iniciar qualquer acorde da primeira música “Prove It”. Logo percebi que o que vamos ver ali na noite não é um show habitual de punk rock, ninguém ali vai bater cabeça e fazer rodinhas de pogo, o show é um espetáculo de guitarras de Tom Verlaine e Jimmy Ripp. As músicas ganharam novas roupagens, além da habitual sequência de acordes das gravações, vimos ali, solos estendidos e bastante improviso com bases em jazz. Verleine e sua banda parecem não se preocupar muito com o público, se mostram bastante concentrados e tímidos, conversando pouco sem se importar muito com os aplausos e gritos, o dialogo ali eram de instrumentos. O auge foram as músicas Vênus e Marquee Moon, levaram os fãs a loucura, esta ultima com um solo extra e arrebatador proporcionado pelo Verleine, de deixar qualquer um de queixo caído.  O show terminou rápido, uma lenda com um set list curto e encantador que merecia mais tempo e uma melhor colocação dentro da programação do Abril Pro Rock. ( por Felipe Matheus)

Marcelo Jeneci

603646_627656987247910_2016870634_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

O palco do Abril encontrou um Jeneci solto, preocupado em empolgar e agradar. Bom músico, letrista mediano e de voz satisfatória, todos elementos que culminaram no reconhecimento que hoje possui por parte do grande público lá estavam. O show do Feito pra acabar já não é mais novidade para os recifenses, que tiveram oportunidade de vê-lo em ao menos três ocasiões, contando com o Festival de Inverno de Garanhuns. Contudo, mesmo assim, o artista arrastou alguns tantos fieis (muitos deles casais, impulsionados pela melosidade viral alcançada pela sugestão casamenteira de  “Pra sonhar” ).

O interessante do setlist escolhido curiosamente não residiu na escolha do repertório, mas sim na maneira de executá-lo. Muitas das músicas definitivamente evoluíram ao longo da turnê, e tem sido tocadas em versões diferentes do costume, o que demonstra um cuidado em fugir da obviedade e dar novos ares a canções já bastante executadas. “Tempestade Emocional“, por exemplo, deu início à apresentação numa roupagem mais cadenciada, um tanto quanto irreconhecível para os desatentos. Laura Tavieri continua representando uma opção salutar e, hoje, quase indissociável do trabalho de Jeneci. Também carismática e dona de uma bonita voz, é responsável por ótimos momentos. Além disso, não faltaram os clássicos “Copo D´’agua“, “Felicidade” e “Pense duas vezes antes de esquecer“. O ponto fraco residiu na insistência em músicas menores no trabalho do paulista, como “Borboleta” (uma vergonha alheia que jamais hei de entender) e a trilha sonora da auto-ajuda, “Show de estrelas“. Ausências como “Dar-te-ei“, “Quarto de dormir” e “Dia a dia lado a lado“, diante das escolhas acima, foram quase indesculpáveis.

Siba

310886_627656307247978_725082971_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

Dono de um forte álbum, Avante, que rendeu um dos melhores shows do ano passado, o recifense Siba (ex- Mestre Ambrósio), com um repertório de excelentes canções, jamais desaponta. E durante a quase uma hora e meia em que se apresentou no Abril pro Rock fez mais uma vez um bom apanhado do seu festejado disco. A belíssima “Ariana“, a divertida “Canoa Furada” e sua tuba fantástica, a belíssima “Preparando o Salto” não foram esquecidas pelo cantor, que, do alto de seu talento e maturidade, e acompanhado de uma banda de peso, fizeram o melhor show da noite.

Móveis Coloniais de Acaju

407064_627656630581279_1349018936_nFoto Divulgação: Abril pro Rock © Rafael Passos

Responsáveis por segurar o público até as quase 4 da manhã, eram mais de 2 horas da madrugada quando a big band Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília,  adentrou ao palco. A expectativa era que fossem apresentadas músicas constantes de seu novo disco, “De lá pra cá”, a ser lançado em breve.

O que era pra ser um privilégio, ouvir a primeira execução ao vivo de algumas faixas, tornou-se uma experiência cansativa. Quase todo o show foi intercalado por uma nova faixa e um grande sucesso. E como se isso não fosse suficiente para diminuir paulatinamente a empolgação do público, o contraste entre as antigas e novas composições foi gritante. Foram apresentadas certa de sete músicas novas, num set list de não mais que dezesseis canções, e, dentre elas, apenas duas soaram realmente interessantes e capazes de propagar a intensidade do som inusitado e consistente que se tornou característica da banda. Infelizmente, a maioria das novidades não convenceu, diminuindo a expectativa pelo álbum, posto que as canções vêm carregadas de uma melosidade quase imatura, arranjos até que elaborados, mas maçantes, e letras muito abaixo da qualidade que aprendemos a respeitar.

A Móveis, dona de dois bons discos, e de um repertório capaz de animar até velórios, conseguiu, no entanto, dar saldo positivo à apresentação. Fato curioso que muitos ali presentes estavam pela primeira vez num show da banda ( questão levantada pelo vocalista André Gonzales ao longo do show; vocalista este, que diga-se de passagem, apresenta uma voz cada vez mais poderosa e digna de nota). Para aqueles, talvez sido uma boa experiência, porém certamente, em comparativo a shows mais antigos, este da primeira noite do APR esteve muito aquém. Porém, hits como “Perca Peso”, “Tempo“, “Bem Natural” ( que contou com um grande momento de solos individuais), “Cão guia” e  “Copacabana” cumpriram a função de valer a pena a espera.

Em linhas gerais, assim foi a sexta-feita do Abril pro Rock 2013, que contou com uma ótima estrutura ( das oficinas, aos estandes de moda, passando pelas opções de alimentações, chegando a preço e venda de ingressos – destaque para a arrecadação de duas toneladas de alimento advindas do ingresso social), porém não convenceu quanto à expectativa de não ser apenas um mero retrato da cena indie rock nacional atual. Foi exatamente isso que a noite significou, e para um festival detentor da carga de responsabilidade que tem o Abril, é muito pouco. Contudo, foi uma noite carregada de, se não momentos inesquecíveis, elementos que não chegaram a justificar um arrependimento pela investida. Que venham anos mais inspirados, certamente estaremos lá para aplaudir, e poder presenciar esse retrato em movimento.

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