Sobre Yeah Yeah Yeahs, Mosquito e sangue

Yeah-Yeah-Yeahs-Mosquito

É sempre uma árdua tarefa corresponder às expectativas. Quando elas brotam incontroláveis, além de nossa vontade, impulsionadas pelo que já fizemos de melhor, esse trabalho se torna ainda mais dificultoso. Uma banda como Yeah Yeah Yeahs, já madura, porém ainda jovem, alçada à categoria de icônica por inúmeros aspectos, desde o apelo visual de sua incomparável frontwoman, até a habilidade de fazer tanto com uma fórmula tão básica, inevitavelmente enfrenta o dilema desse embate diante dos seus próprios feitos. E do desafio de se superar nasce o novo trabalho da banda, Mosquito.

Karen O, Nick Zinner e Brian Chase são responsáveis por pelo menos dois dos melhores álbuns da década passada. O debut Fever to Tell, de 2003, e o terceiro disco, It’s a Blitz, de 2009, são inquestionavelmente grandes trabalhos, repletos de energia e vigor, capazes de criar alguns dos hits sempre lembrados como ótimos exemplos do que houve de mais cool na década passada ( “Rich“, “Date with the Night“, “Maps“, “Zero“, “Heads will Roll“, e “Skeletons” comprovam isso). Assim, será sempre complicado para o trio manter o nível de um currículo tão enriquecido, e, verdade seja dita, eles tentaram, e não conseguiram. Mas, se você está pensando que isso depõe contra o álbum a ponto de severamente danificá-lo, engana-se. Não obstante qualquer comparação ou expectativa frustrada, o interessante de “Mosquito” é que, apesar de claramente abaixo dos demais em termos de relevância do conjunto e incapaz de fazer brotar com naturalidade uma poderosa força que apenas obras-primas conseguem, não podemos falar num disco propriamente ruim.

A banda reapareceu empolgada com o novo trabalho, entoando felicidade pelo fato de voltar às origens na gravação de um novo disco (foi escolhido um pequeno e típico estúdio de porão em NY para trabalhar as composições e arranjos). Em alguns depoimentos, é clara a satisfação de seus integrantes com o resultado, mostrando que se divertiram durante sua elaboração, e o continuam fazendo nessa fase de divulgação. No modo como soa o disco, percebe-se essa aura de entusiasmo e diversão, advindos tanto dos vocais ainda charmosos de Karen, quanto dos climas atingidos em cada música (ora explosivos, ora contidos). Porém, esse aparente descompromisso com a seriedade, que não deve ser confundido com flerte com o desleixo, apesar de conferir leveza à fluência do disco, coopera talvez para um esvaziamento de proposta que, dessa vez, sim, cria um problema determinante.

No álbum encontramos boas canções sobre romances, encontros, todas encobertas pelo estilo único e natural de impressionar do YYY. O mosquito, com o perdão da brincadeira, é que incomoda. A escolha dessa representação, embora possa significar uma brincadeira sobre a irrelevância que perturba, é muito simplista para justificar a escolha, e se afasta da grandeza que costumou acompanhar uma banda tão confortável com a não-obviedade. Em vídeo que já circula há alguns dias, foi divulgada a audição do disco inteiro, recheado de depoimentos dos integrantes sobre suas novas canções. Confira abaixo:

De início, “Sacrilege” aponta um abre-alas estiloso, que cresce ao longo de seu desenvolvimento e se conclui de forma surpreendentemente apoteótica com a ajuda de um coro gospel. “Subway“, logo em seguida, inspirada no metrô de NY, ao meu ver soa como um devaneio fetichista que rendeu uma canção cadencialmente sensual (The XX poderia regravá-la sem grandes alterações). “Mosquito“, com uma percussão discreta e guitarras de melodia visceralmente rock and roll, não pode ser taxada de irrelevante, e é notório o esforço da banda (dos vocais ao arranjo) para simular conteúdo onde não há. Curiosamente, com o tempo a música passa de despretensiosa a engraçadinha. Ruma, quem sabe, para o divertida e empolgante.

Slave” é outra grande canção, dona de um arranjo barulhento e poderoso, passeia por um clima de dominação, curioso como o prazer intrínseco ao ato de submeter e subjugar. “Area 52” traz um outro bom momento sonoro, embora escorregue na tentativa gratuita de soar fácil, ingênua, até. O álbum segue de forma controlada  e não muito criativa, com “Buried Alive” (que conta com rap de Dr. Octagon, incapaz de acrescentar muito à música, no entanto) e “Always“, uma típica música filler, que mira no clima onírico e reflexivo, mas soa desempolgante.

É nesse contexto que surge “Despair“, de longe a melhor música e composição do disco. Canção que, de tão boa, merecia outros clássicos instantâneos para lhe fazer companhia, e, por se encontrar entre outras menores, brilha ainda mais, e, com exageros, quase redime a falta de inspiração que ronda o álbum. “Oh despair, you’ve always been there (…), You were through my wasted years, you were through my wasted fears. no tears…Run through my fingers, tears…(…) If it’s all in my head, there’s nothing to fear, nothing to fear inside. Through the darkness and the light some sun has got to rise. My sun is your sun. ” Trata-se de um hino sobre dor e recuperação, que, com seu arranjo crescente explodindo em emoção, nos transporta a outros planos.

E, assim, concluindo uma obra controversa e irregular, “Wedding Song” acrescenta classe a “Mosquito” e representa uma boa sequência à magnífica “Despair“, estranhamente conferindo um desfecho elegante a um disco que se propunha despojado. Portanto, é este notável conflito de foco o maior ponto fraco desse quarto disco dos Yeah Yeah Yeahs. Um fator curioso é a impressão de que a banda aparenta realmente ter dado muito de si por esse Mosquito, e, diante dessa percepção, aliada à grande expectativa frente à sua bem sucedida discografia, é inevitável o sentimento de que eles poderiam ter conseguido mais. Contudo, não vivemos de excelência, e nem sempre é lógico se superar. Quando damos o nosso melhor, e não obtemos o melhor resultado, embora o esforço não construa a conquista, este se justifica, se recompensa. Mosquito encontra-se devidamente justificado, embora sugira que, para os próximos trabalhos, será necessário da Yeah Yeah Yeahs um pouco mais de alma, inventividade e sangue.

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