Entrevistão: Rieg (em estúdio)

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Logo quando descobri que a banda Rieg estava gravando seu primeiro disco, fui falar com o Rieg Wasa, aproveitando (e me auto-convidando) para comparecer em algumas das sessões da gravação no estúdio Mutuca. Depois de marcar vários dias, a maioria não pude comparecer devido a meus muitos trabalhos e obrigações, cheguei a conferir no final de janeiro uma das sessões.

Era um sábado a tarde e logo que cheguei percebi que o Rieg no Mutuca se sente em casa. Seu ajudante e técnico de estúdio é nada menos que o Daniel Ennes, baixista do grupo. No dia eles estavam trabalhando numa música chamada “Leave To Me Girl”, Rieg se encontrava muito concentrado, mas ainda se mostrava um pouco nervoso e inseguro para gravar ela. A música é bem pop, com teclados muito bem arranjados e ótimo acompanhamento de contra-baixo. Com muita rapidez ele grava todo o áudio de voz da faixa, tão rápido que o surpreendeu. Daniel ainda comenta pro Rieg relaxar um pouco: “Tem gente que dá muito mais trabalho”.  Em seguida, os dois gravam os backing vocals da música e depois partem para uma próxima gravação, mas por conta do horário tenho que ir outro compromisso e combino de voltar outro dia para realizar a entrevista.

Dessa vez, estamos no inicio de fevereiro, combinei de conversar com o Rieg Wasa na produtora de vídeo da namorada do Daniel, Mariah Benaglia, uma das pessoas que está ajudando o Rieg neste novo trabalho, que será na verdade um audiovisual. Isso mesmo, o novo disco do Rieg será acompanhado de um filme. Confira nossa conversa logo abaixo, primeiramente apenas com o Rieg, logo após, com a participação do Daniel:

Rieg, primeiramente, em qual momento anda a gravação do álbum?

Agora a gente terminou toda parte crua, gravamos boa parte da parte eletrônica, bateria e baixo, algumas vozes, e muita coisa dos sintetizadores que têm participações de Haley Arthur (Burro Morto). Eu também toquei alguns synths, mas geralmente eu faço as minhas partes em casa, com samples que são recortadas de outras músicas que eu reaproveito, por exemplo, de música funk antiga. Recorto o som de bateria e reutilizo para minha música, bem tecnobrega (risos).

A identidade desse CD já vem do primeiro EP, com isso de misturar o velho com o novo, o analógico com o digital, o acústico com elétrico. Talvez esse trabalho puxe mais para o elétrico, mas sem faltar o vintage. Um das referências pra gente é criar um som vintage moderno, captando a essência do vintage e dando uma roupagem nisso.

Então a música do Rieg é vintage-moderno? Isso foi uma coisa que vocês inventaram?

É uma coisa que eu nunca ouvi falar antes, em termo de musicalidade até por que nem escuto muito musica, minhas referências são poucas, até digo que tenho mais referências visuais. Sempre tive um lance de gostar de filmes, principalmente os trashs.

Seu processo de composição então é mais inspirado em filmes do que em músicas?

É, muito filme de terror dos anos 80, assim, os mais trashs possíveis, uns até mais nojentos.

As letras são influenciadas por esses filmes?

Não, esse CD vai ser mais conceitual. Mas, pera aí, esse é mais lance de referência visual, é uma coisa que a gente tem muito em comum na banda. Daniel é mais foda nisso de explicar, uma ideia de uma música passando apenas um sentimento, no caso, o sentimento visual.

Vai ser conceitual porque vai ser ligado a um vídeo, o CD.

Fotos de Rafael Passos, edição Rieg

Fotos de Rafael Passos, edição Rieg

O filme vai ser dividido em clipes?

Não, o filme todo é clipe. Praticamente. Ele vai seguir o mesmo princípio do sampleado das músicas, pegar cenas de filmes toscos e reutilizar num outro contexto.

Mas vão haver gravações?

Sim, provavelmente. Até agora só sabemos do inicio e o fim (risos), é que vai depender também de Mariah que ajuda nessa parte. Tem uma história que vai acompanhar o CD, eu criei para amarrar tudo conceitualmente: é um menino que perdeu o pai cedo e quando ele está se encontrando como individuo na adolescência, definindo sua personalidade, ele vai querer, também, descobrir quem era o pai, já que a nossa memória é construída socialmente.

A gente não pode ter certeza de nossas memórias, porque depende de quem falou pra gente o que é verdade e o que é não é e por isso a gente cria muitas coisas na cabeça, que talvez não sejam verídicas. Daí a única informação/lembrança que o menino tem é que o pai sempre ia pro porão da casa e ficava trancado lá e quando ele finalmente toma coragem de ir nesse porão, vê que só existe uma cadeira, uma TV velha e algumas fitas VHS com um monte de filmes sem nome que foram gravados da TV.

O personagem fica frustrado em ver que todo mistério do porão se resume a isso, mas ele permanece no lugar querendo ver as coisas que estão gravadas para, assim, descobrir a personalidade do pai. Ele vai se chocar muito com os filmes trashs, de terror e de ficção científica e isso causa alguns transtornos psicológicos no menino, psicóticos, mas aos poucos ele vai achar métodos de lidar com isso e não ficar tão decepcionado com essa imagem. O fracasso também é uma coisa que faz com que a gente seja humano. Várias coisas do pai, inicialmente, podem parecer negativas, mas dependendo de como você enxerga, podem ser positivas.

Quais são as músicas que você mais gosta do CD?

Nesse disco, estamos com essa nóia de querer gravar devagar e testar muito. Eu fico com essa nóia de soar perfeito, não perfeito no sentido de ficar lindo, mas no sentido de querer gostar da produção daqui a 5 anos, do mesmo jeito que eu gostei hoje. Uma das faixas foi o Daniel que teve toda a ideia, e eu acho uma das melhores do CD, a “”Witch, Witch, Witch””. No disco tem umas músicas antigas também, que a gente já tocou ao vivo. Em principio, o CD tem 12 músicas e o nome é 12:00. Anunciamos o disco no dia 12.12.12 às 12:00 horas, e por isso também que na página do facebook, sempre tem às 12:00 uma imagem nova, que remete esteticamente a banda.

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Eu tenho acompanhado o facebook de vocês e tenho visto. São vocês mesmos que criaram? Tem um lance com uma TV antiga também…

Isso, o vídeo da TV  fui eu que criei, tenho tentado ser mais cuidadoso  conceitualmente.  Amarrar tudo bem bonitinho (risos). A única coisa que aprendi em 5 anos de psicologia foi que muitas vezes a gente tem uma ideia na nossa cabeça e acha que está tudo muito claro, só porque eu pensei acho que todo mundo entendeu. Agora estou, realmente, querendo puxar mais pro lado de mostrar aos poucos as cenas de filmes toscos que eu gosto, de vez em quando uns clipes toscos, essa estética da TV vai ser narração do conceito do CD. Eu vou lançar em breve outro clipe com uma chamada muito engraçada que eu fiz: é um TV velha só que digitalizada.

O que você espera do lançamento deste novo trabalho?

Eu vou deixar a vida me mostrar isso (risos). É difícil dizer na verdade, porque eu queria que o máximo de pessoas escutassem (risos). Sem querer ser brega, tenho medo de soar brega, mas quero que um público mais universitário escute isso. Eu acho que vai ter muito estimulo pra esse público neste trabalho, por que vai ter o lance da coisa visual e musical, então, o simples fato da pessoa se permitir ouvir e se sentir tocado por aquilo já tá massa pra mim. Mesmo se não gostar, investi muito nesse lance meio tosco, meio assustador e meio desconfortável, por que a pessoa pode até não gostar, mas que vai sentir algo disso, ela vai.

Bom, eu me lembro da primeira vez que vi a apresentação do Rieg no festival mundo em 2010, foi um show que achei legal por ser bem intimista…

Isso sempre foi a proposta do Rieg, desde do primeiro trabalho. Eu sou meio “agorafobico”, eu tenho um pouco de pânico quando vejo muitas pessoas.

Por isso a Rieg faz poucos shows?

(risos) Fora a música, eu não gosto da cultura da música, tipo, eu não gosto dos motivos que as pessoas vão aos shows. Isso vai parecer tão chato, mas eu gosto da coisa intimista porque o motivo que leva a pessoa a ir para o show é diferente. É a música e o momento. Se você vai pra um show, nada contra, mas não é uma coisa que me agrada muito, eu entendo e compreendo, só não concordo exatamente.  Por isso que até pensei nessa coisa das artes integradas, vai calar a boca de muita gente, acabar com a coisa de ir pra um show só pra encontrar com os amigos e beber cerveja. Tem shows pra isso, massa, mas eu não curto muito isso.

Tá explicado porque você nunca aceitou tocar numa festa do AtividadeFM (risos)

Foram por algumas coincidências, foi foda (risos). Teve uma fase da banda que foi meio assim, a gente tocou em muito show rock’n’roll tipo “vamos fazer um show dançante e num sei o que” e o momento foi bom, mas eu me senti muito desligado do projeto. Quero que as pessoas tenham uma experiência multi-sensorial sem se prejudicar no “oba-oba”. Não sei se tô sendo muito radical, acho que tem que existir bandas assim também, mas eu não consigo compor para isso.

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O novo disco do Rieg, 12:00 será lançado de forma digital?

Deve ser lançado virtualmente, mas eu tô fazendo questão de não ter CD. Vai ter um produto físico, que não posso revelar agora. É segredo. O produto físico não vai ser uma mídia convencional, mas eu vou realmente puxar essa coisa de trocar arquivos, afinal, ninguém compra músicas mesmo. Eu mesmo fico puto com as banda quando não liberam pra baixar, minha vontade é de não escutar a mais banda, só de pirraça. Não sei se vai ter mp3, talvez o disco seja lançado no YouTube já que vai ter o lance do vídeo.

No momento Daniel (baixasta) entra na entrevista

Vocês acham que existe alguma banda que remete ao som de vocês aqui no Brasil?

Acho que aquele grupo lá de Campina Grande, o Grandphone Vancouver.

12:00 tem já tem uma previsão de lançamento?

Daniel: Sim, no final deste primeiro semestre do ano. Quando a gente fez o cronograma, prevemos em maio, mas surgiram alguns problemas. Acho que em junho finalmente ele estará saindo.  Ainda temos que trabalhar a parte de marketing, estamos terminando as gravações, daí partiremos ainda pra mixagem e a fase de produção do vídeo. O Rieg já veio com a maior parte, só precisamos nos organizar e ensaiar com os vídeos. Mariah vai ser a diretora e ainda o Rieg ainda teve uma ideia muito boa com os pendrives.

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Hum… então o segredo eram os pendrives?

(Risos)

Rieg: Não, mas tem outra coisa também.

Daniel: É verdade, tem outra coisa, é não pode falar a outra coisa.

Rieg: Inicialmente vai ter muito trabalho para ganhar a música, vai ter que fazer um esforço pra conseguir. Pela cidade. Voltando ao Grandphone, eu gosto porque acho que ele tem uma proposta mais intimista, e está puxando para um som que não foi feito tantas vezes né.  Acho que tem que ter esse som também que foi feito várias vezes, mas – como toda arte – tem que evoluir a coisa. Logo quando eu cheguei aqui, as bandas estavam naquela de reciclar Chico Science, tinham muitas bandas com influências do maracatu,  nem a galera de recife aguenta mais.

Daniel, você poderia dizer como está soando o 12:00?

Daniel: O rieg trás muita coisa do pop, mas também tem muita influência da música eletrônica, do recorte, do sampler tocado,  tema bateria tocada e a bateria orgânica tocando junto. Uma coisa vai dar outra.

Você tocou muito tempo no Madalena Moog. Como se deu sua saída do grupo?

Foi tranquila, acontecer por uma questão de tempo. Eu estava terminando o curso, fazendo estágio, dando aula de inglês e alemão e ainda tinha que dar conta de duas bandas. Ainda por cima, o Madalena toca muito e não deu mais tempo pra conciliar tudo,  apesar de que eu gostava muito de tocar samba, pra remeter algum som, apesar também que remetia pra um outro lado. Remetia a algo mais americanizado talvez, mas “pop”.

Vai ter show de lançamento?

Vai ter um show de lançamento, com esse lance das artes integradas. Vai ter o vídeo, vai ter um show diferente, mais interativo. A configuração da banda é muito orgânica, mas vai ter momentos que a gente vai fazer shows mais íntimos e maiores, com menos ou mais membros, é por isso que Nildo, estando hoje em Teresina, não incomoda tanto, porque quando tivermos shows grandes assim ele pode vir.

Vídeo teaser 12:00

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