Roger Waters e o espetáculo The Wall no Morumbi, São Paulo – 03.04.2012

And now for something completely different:

Já tendo assistido a um concerto de Waters em 2007, imaginava todo o megashow que eu esperava. Afinal, o ex-Pink Floyd é assim: grandioso, megalomaníaco, perfeccionista. Efeitos visuais fantásticos, uma porrada de informação na minha frente, explosões e efeitos surround. Assim foi a abertura do espetáculo, e parecia impressionante que a primeira música tenha aparecido assim, como um soco na cara. Ao final de In the Flesh?, pensei logo: “Acabou, já deu! Preciso de mais nada!”. Mas meu tremor excessivo pelo frio e excitação me diziam o contrário. Eu precisava. Precisava passar por todas aquelas horas que me esperavam e todas as reflexões posteriores que viriam ao final do espetáculo.

Cenas belas representavam cada uma das músicas do primeiro CD. A primeira parte do show foi impecável e algumas músicas se destacaram, como o medley das seis primeiras canções as impactantes Empty Spaces e Young Lust.

Tenho um interesse pelo bizarro, pelo decrépito. O enorme boneco flutuante do professor opressor me encantou, assim como a mãe de Pinky, as imagens cruas e pesadas projetadas no muro, os desenhos do gênio louco de Gerald Scarfe.

Quem conhece o álbum de cor e salteado sabe que, quanto mais o muro fecha, mais o clima fica pesado. O espetáculo retratou isso com uma perfeição sem igual. Um dos momentos mais marcantes veio ao final da primeira parte, em One of My Turns e Don’t Leave Me Now. Com todas suas obscuridades, os números foram emocionantes, tocantes. Era como sentir que nossas próprias vidas estavam indo às ruínas, assim como se sentia o personagem principal de tudo aquilo. Seguidas pelos efeitos sonoros esmurrantes de Another Brick in The Wall (Part III), o primeiro ato chegava ao seu fim com The Last Few Bricks e Goodbye Cruel World, acompanhada do último tijolo.

Então veio uma pausa um pouco brochante de 30 minutos, mas aliviadora – estava quase molhando minhas calças, diga-se de passagem.

O muro completamente fechado e nenhum sinal da banda tornaram Hey You ligeiramente frustrante, mas que agora fazem sentido quando percebo que a próxima música do álbum é convenientemente Is There Anybody Out There?. Assim como no show de Berlim em 1990, sozinho em seu quarto, acompanhado apenas de uma TV e uma poltrona, Roger cantava, em seguida, Nobody Home.

Comfortably Numb foi um espetáculo só. Exatamente como o vídeo de um show da turnê em Londres:

Até o último segundo, tinha uma esperança que Gilmour aparecesse… hahahaha.

Como são muitos detalhes e não quero encher muito o saco de vocês, alguns itens destacam as próximas e últimas músicas: uniforme fascista, megafone, metralhadoras, vermelho, preto e branco em excesso e um porco voador.

Como já disse antes, gosto do bizarro. Por isso amo The Trial. Durante toda a música, o clipe original do filme aparecia no muro, com algumas modificações e efeitos 3D supreendentes. E eu gritava enquanto Waters personificava todos os personagens da música: TEAR DOWN THE WALL (meio que percebi que era uma das poucas que berravam, risos). Senti falta de mais uns bonecos interagindo.

E, em pouco tempo, como num estalar de dedos, o muro caia em pedaços na nossa frente ao som de Outside The Wall. E todos queriam que o show continuasse… The show must go on!

Quanto mais escrevo, mais quero escrever! Simplesmente não há um detalhe que não valha a pena comentar… Mas isso levaria um tempo. Então, me conformo e espero que vocês se conformem também.

Foi (bem mais que) isso que aconteceu:

PARTE 1

“In the Flesh?”
“The Thin Ice”
“Another Brick in the Wall (Part 1)”
“The Happiest Days of Our Lives”
“Another Brick in the Wall (Part 2)”
“Another Brick in the Wall (Part 2) Reprise”
“Mother”
“The Show Must Go On”
“Goodbye Blue Sky”
“Empty Spaces”
“What Shall We Do Now?”
“Young Lust”
“One of My Turns”
“Don’t Leave Me Now”
“Another Brick in the Wall (Part 3)”
“The Last Few Bricks”
“Goodbye Cruel World”

PARTE 2

“Hey You”
“Is There Anybody Out There?”
“Nobody Home”
“Vera”
“Bring the Boys Back Home”
“Comfortably Numb”
“In the Flesh”
“Run Like Hell”
“Waiting for the Worms”
“Stop”
“The Trial”
“Outside the Wall”

Roger Waters sabe escolher exatamente os elementos para tornar toda a experiência completa. Desde os rostos a representarem tijolos no muro – Sakineh; Jean Charles; o pai do próprio Waters, morto na segunda guerra; mártires; ‘causalidades’ -, a todos os outros elementos: obras carregadas de críticas ‘Banksyanas’, a resposta em português ao “mother, should I trust the government?” (NEM FUDENDO!), e cenas reais de guerras. Os efeitos sonoros eram de deixar o queixo aos pés. Cada passada de um helicóptero que não existia, fazia todo mundo de besta, procurando algum sinal dele no céu.

Talvez o The Wall seja, agora, realmente um espetáculo, um ópera-rock que contém experiências comuns a quase todos, experiências que te espetam no olho e que são difíceis de escapar.

Era interessante ver estampado no muro durante a impecável Goodbye Blue Sky cifrões sendo jogados como bombas de aviões, acompanhados de símbolos religiosos e capitalistas (a marca da Shell, da Mercedez e McDonald’s). Interessante pelo fato de ver aquilo tudo sentada num show megalomaníaco, dividido por setores onde as cadeiras custavam até R$900. Enquanto víamos os símbolos caindo, alguém provavelmente estava tomando conta da ilha que Roger Waters comprou em conjunto com Shakira, lá no Caribe…

Dito isso, acho Roger Waters foda e um artista como nenhum outro. O The Wall é uma obra-prima, extremamente crítica e que nos faz pensar sobre tudo que nos rodeia: nossa família, nossos relacionamentos, o sistema que nos controla. Quem passou pela experiência de fazer parte desse show, teve a oportunidade de perceber uma essência da natureza humana: somos todos contraditórios. Assistir ao espetáculo, para mim, foi atingir a catarse.

Anúncios

3 respostas em “Roger Waters e o espetáculo The Wall no Morumbi, São Paulo – 03.04.2012

  1. O show foi tudo isso mesmo que você falou e muito mais!
    Inesquecível!

    Ótima descrição resumida de um espetáculo que daria pra escrever um livro contando cada detalhe de cada imagem que aparecia naquele muro alucinante.

  2. Gi, eu fico só imaginando como vc deve ter se sentido num show com esse… deve ser mesmo impossível de se explicar… e olha só, você tem um talento incrível para conseguir descrever em palavras as suas emoções…

    um bjão! =D

  3. Realmente o show foi fanstástico! Sou um grande Fã do Waters e fui em todos os 3 shows dele no Brasil. Ele foi visualmente o mais fantástico de todos, eu sai do estádio realmente atordoado e após o show tenho voltado a escutar o album The Wall novamente (já havia enjoado), realmente ver um show desses ao vivo foi fantástico, o Waters é realmente um gênio megalomaniaco que gosta de grandeza, mas o cara é fera! Atualmente eu consegui uma gravação do mesmo show na europa que está em 1080dpi, muito bom mesmo. Estou legendado ele para guardar de recordação para meus filhos pois este vale a pena ter na estante! Abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s